Blog da autoria de Leonardo Alves. São poemas, contos, crônicas, rabiscos de gênero inclassificável. Além de pretenso escritor, Leonardo também é fabricante de nuvens e nas horas de folga compõe canções obscuras.
quinta-feira, 27 de março de 2014
terça-feira, 4 de março de 2014
Pouso
Para Vanessa Regina
Há tanto mar nas tuas lágrimas
Tanto amor nos teus olhos de cristal lúcido
Tanto amor na seiva dos meus braços
E dor na breve necessidade da ausência
Mas há também um porto
Um pouso, um farol
Uma vida à parte
Para descansarmos
Há tanta profundidade nas tuas noites
Tanto questionar-se, tanto frêmito
E há um medo no meu peito frágil
Inquietação, receio indefinido.
Mas há, acima de tudo
O amor, uma resposta
Que se desenha no teto
Na simpleza do gesto
Imensurável
Enfim, o definitivo encontro
A paz afinal
Sinalizando renovados dias
Revoada de versos.
quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014
Fuga
Para Emily
Eu
estava com a barba postiça
De
Dostoievski
E
segurava a antiga bolsa
Que
herdei do meu pai
Ela
chegou logo em seguida
Um
chapéu excêntrico
E vestes
Belle epóque
Não
estávamos tão discretos
O quanto
gostaríamos
Mas não
fazia diferença...
Realmente
éramos diferentes
Dos
demais passantes.
Pronta
para a fuga, Baby?
Trazia
uma mala que mal conseguia carregar
Fui
ajudá-la
Cuidando
estranho o peso,
Tomei a
liberdade de espiar...
Livros,
manuscritos e cadernos...
E as
tuas roupas, Baby?
Não
couberam por causa dos livros – Ela disse
Enternecido,
falei:
Ah, é
por isso que te amo!
E nos unimos
num abraço longo e silencioso
Num
dístico despojado & amoroso
Eu
levava roupas elementares
Rimbaud
e meu violão
Tudo
certo!
Nosso
destino?
Um país longínquo
e frio
Sem
carnaval
Tudo
certo
Nosso
destino?
A louca
aventura
De viver
o amor
Em fuga
Obscuridade
Essa
poesia botada fora
Esse
sono sem esplendor
Esse
verso que se insinua
Vida
a ser redigida
Sem
dia marcado
Esse
silêncio unânime
Esse
dínamo amortecido
Esse
solfejar curvado
Este
escrever amarrotado
Num
riacho turvo
Esse
não ser Rimbaud
Esse
não ser Homero
Esse
ser sem rosto
Porvir
que não vem
Só
um cansaço cinza
Esse
não ser Verlaine
Esse
costume epígono
Contraversão
Da
luz e da energia
E
a sala de máscaras
Todas
com pó e umidade
Esse
deixar-se obscuro
Esse
mostrar-se nu
Dentro
de uma gaveta
Lamento
como adágio
Dia
a dia: planos que morrem
Em
doses de tédio e traças
Ser-se
eterno ser obsoleto
Esquecido
num caderno
O Sortilégio não vem
A cura - a calma não chega
É hora de queimar tudo Versos –
Projetos abjetos Inclusive o poeta
domingo, 19 de janeiro de 2014
Poema para Emily nº 2
1
Ela
encontrou minhas cartas de suicida
Antes
que eu me jogasse no mar-evasão
Em
definitivo
E
me apresentou sua lira fulgente
Diamantes
que brilharam para meus olhos
E
para minha alma de estanho estilhaçado
Emily
me ofertou um novo coração
Deu-me
visões - alusões
Um
jeito de ser - novamente
Um
sorrir que estava aprisionado
Em
fotos da década passada
Emily
é um espelho
E
nos vemos
E
nos confundimos
Confluímos
Sonho
concreto para repousar
Olor
de vida palpitante
Emily
sempre
Com
as mãos cheias de versos
Ideogramas
E
sentimentos
E
com seus beijos labirínticos
Sua
inteligência seu humor
Consegue
emudecer o tempo
Para
nós dois...
2
Descobrimos
que somos
Da
mesma substância rara
Feitos
de silêncio cálido
E
olhares para o infinito
Somos
duas montanhas
Assinalando
a imensidão
Juntos,
de mãos dadas
Caminhando
ao pôr do sol
Mesmo
que não haja sol.
segunda-feira, 13 de janeiro de 2014
Poema para Emily
Quando te conheci
Não foi te conhecer
Foi te reencontrar...
Eras o meu sonho:
A menina
Abraçada em um livro de
poemas
Seu olhar tímido
E, ao mesmo tempo, intenso.
Um momento mágico
Daqueles que se espera
No mínimo 35 anos para
acontecer:
A menina
E seu livro de poemas!
Há tu, que me encontraste
Através de poemas sonâmbulos
Cheios de solitude!
Quem diria, que irias me dar
o impossível
Um sorriso!
Fomos ver o mar
Mas havia algo maior que o
mar
Surgindo entre nós
Tu perdoaste meus clichês nervosos
Eu te dei Cecília e uma
dedicatória!
Eras o meu sonho realizado:
Uma menina
Com poesia no olhar, na pele,
nos lábios
Eu já não sabia brigar com a
vida...
Conversamos, conversamos
Até o entardecer
O barulho motorizado da
cidade
Uma TV abjeta
Não nos incomodou
Nos fez rir
E entre sorrisos e beijos.
Por fim nos abraçamos em
silêncio
E entre teus braços e o silêncio
Me descobri em ti
Percebi que minha vida
Havia mudado naquele
instante...
sábado, 11 de janeiro de 2014
Rascunhos do Caderno B (mais uma folha maldita)
1. Faz um calor proveniente das
fornalhas do inferno. Mas sinto frio. Muito frio. E medo. Não o medo de estar
enfermo, com febre. Não o medo pálido da morte. Somente o medo dessa ausência
de mim, ente sem biografia cada vez mais dissipado. Sem utilidade prática.
2. Recitei teus poemas em voz
alta como se estivesse rezando. Na esperança de ressuscitar a borboleta morta
no peitoril da janela. Perdi mais que o sono. Não sinto gosto de nada. Nada.
3. Esculpi num ímpeto de
Pigmalião toda tua essência. Ficaste invisivelmente linda. Mas teu corpo... Não
consigo, não posso. Teu corpo se evapora da minha mente antes que eu pense em
esculpi-lo. Teu corpo é longes e sem fim. E sem mim.
4. Amo dormir, pois o sono é uma
amostra sutil da morte; por isso a morte não me causa espanto. Por isso
adormecer tanto me apraz. O descansar de toda minha lástima - que é anedota
para o mundo prático & eficiente. Entretanto
perdi o sono. Quando se perde o sono, é possível ver todas as fendas do absurdo
de persistir. O livro de sonhos entreaberto, não lido, aborrecido nas cobertas
reviradas. A vida entreaberta, não lida revirada, mal vivida.
5. Confesso, sem pejos, que
desisti das Elegias de Duíno. Escrevo minhas próprias elegias. Leio
parcialmente Nietzsche e Sartre, com o ânimo desbundado. Acrescento um pouco de
ulcerações. E a oficina do poeta é um improviso de madeiras velhas e
infiltrações no teto, nas paredes e na ambição de beleza.
6. Enchi de explosivos minha
sorte; sabotei minha felicidade. Herdei o olhar medroso do meu pai. Meu plano
sempre foi ser uma fortaleza. Mas vou me desconstruindo. Tenho areia no rosto
dos chutes que levei sorrindo/envergonhado. Estou magro, pálido, com fundilhos
caídos no infinito.
7. Minha maldita metralhadora às
vezes dispara no alvo errado. São palavras impossíveis de apagar. O
arrependimento rasga meu peito. O espelho se envergonha de mim. Qualquer escusa
vale menos que uma moeda de um centavo. Não peço desculpas. Perco a batalha. E
cada vez mais, perco o amor.
8. O poeta é bem mais que um
fingidor! É uma fraude!Um ser cheio de lacunas que caga e mija no vazio. O
poeta é um carregador de verduras; estivador de mãos frágeis. Sem aptidões.
sábado, 4 de janeiro de 2014
Elegia I (apontamento)
Ah! se eu chamasse por Deus
Quem viria em seu lugar
Sorver meu sangue e inocência?
Ah, se eu clamasse por anjos
Que legião astuta viria me
fazer rezar
Com a renúncia estéril de um anacoreta?
Desesperado, cavei com mãos
vazias
A minha cova...
Unhas partidas, o sangue
brotando
Misturando-se à terra suja
Já sem digitais, a carne
vívida
Rosto de uma semana insone
Olhei para o fosso aberto
E vi que eu não cabia ali
Mãos covardes demais para
tecer
Minha própria morte
Certo apego em forma confusa
De flagelo & frágil
espera
A beleza também não se
revelaria
Se eu pranteasse por outros ardis
simbólicos
Era preciso superar
O eu dentro da fantasia de
palha
O eu dentro do fantasma de
medo
Superar
Toda a irrisão
E desentranhar
Um olhar fortalecido
Do labirinto de tomos
Cavei um buraco no céu
Para ver o que havia além do
céu
Encontrei astros boiando a
esmo
Em vias de lactescências
Sem vestes celestiais
Encontrei a mim mesmo
No desespero brando
Da solidão.
terça-feira, 31 de dezembro de 2013
Estudo nº 2
Eu abro a porta,
Ela sorri a minha gentileza
Com seu batom discreto
Rosto claro
Cabelo preto
E olhos de carbono
Colo claro,
Lábios brilhantes
Salto agulha
Diz que me ama
Eu digo “está tudo bem,
Onde vamos?”
É um lugar afetado
O mais perfeito vinho
E sutilezas no cardápio
Depois olhamos para as estrelas
Ela diz estar segura ao meu lado
Seu corpo perfeito
Uma tatuagem discreta no pescoço
Vestida apenas pela luz da janela
Eu toco nos seus sonhos
Ela diz que sou único
Depois vai para o espelho
Toma um banho e deita ao meu lado
Eu espreito a penumbra
E não consigo sorrir
Enquanto ela me afaga
Estou só
Eu e minha lembrança...
quinta-feira, 26 de dezembro de 2013
Segredo (conto)
Ela disse que era preciso falar algo. Fomos até um bar onde as mesas ficavam na rua. Não fazia calor nem frio. Uma temperatura mediana para uma noite medíocre, sem estrelas e sem grandes perspectivas. Parece que toda a situação que iria se desenrolar fosse velha conhecida. É como pegar um livro para reler. Aquela noite me parecia um livro relido. Eu estava desanimado, imaginando a cena patética. Sim, por que a cena seria patética, com direito a choro e ranger de dentes. E realmente havia um segredo por trás do olhar. Ela, vestida com uma calça cinza desbotada e uma blusa azul e um olhar de desconforto, que tirava um pouco do viço de seu rosto cor de leite.
E lá ficamos, sob o fundo opaco daqueles pensamentos, murmurando reticências. No vácuo de palavras langues, ela sem coragem de desabrochar seu segredo. Os copos libavam a noites sem estrelas e toda palavra perpetuava o silêncio maior. As palavras perdiam-se no ensaio do verdadeiro motivo de estarmos ali. Delicadamente, pontualmente, um cigarro ardia nos lábios e a conversa seguia úmida, tímida e pontuada como um salmo cantado a esmo.
Desgostando do teatro desgastado, gestos e farelos verbais, saí do mórbido estado de desânimo e impetuosamente proferi:
- Tuas palavras matizadas com a tinta mais abjeta sequer escondem a decomposição do teu olhar. Então a tua hombridade ruiu triste nas curvas da noite! Teu corpo disse ao silêncio o que teceste em desconforto! Vamos, rebenta por cima de mim este dejeto que fere teu espontâneo ser! Eu já vim preparado.
- Tu já sabes, disse ela... mesmo não sabendo. Serei a última pessoa que conseguiria te enganar - pois vês a ressaca turva dos meus olhos, sentes a pestilência de minhas lacunas sinistramente emaranhadas em uma preleção ao abismo... Deus ou Diabo, este vinho é amargo e forte, meus lábios se quebram e doem só no pensar em te dizer... Em verdades, poucas, queria falar o que não precisaste ouvir, por isso te convidei a este desencontro.
- Então é verdade que a perfídia osculou nossos pomos? Então é verdade que o teu corpo que não era meu evolou-se, definitivamente, a distâncias mitológicas?
Silenciei. Sorvi um copo inteiro de vinho, que parecia ter gosto de plástico derretido e sorri. Um riso avulso de homem traído que perdeu vergonha de sê-lo. Os olhos dela assemelhavam-se aos de um boi melancólico, prevendo seu abate. Calmamente libertei minha mágoa áspera, sem sangue ou rubor:
- Por que fazer tempestade de tais estilhaços que, juntos, nunca perpetraram nossa efetiva união? Jamais conseguimos sermos íntimos um do outro. Havia mais do que roupas escondendo nossa nudez, havia mais do que saliva no beijo cúmplice e havia minha comunhão com o silêncio no orgasmo, esse brinquedo de dez segundos... Enfim, desconhecemo-nos e não há tempo que mostre quem somos um para o outro...
- Tuas palavras me fazem liberta. Há uma bela civilidade no teu exprimir-se, no teu aceitar! Espanta-me, todavia, este corte frio e sem rancor dos teus lábios. Pensei que haveríamos de discutir um pouco a desarmonia de nossas almas, de nossos corpos...
- Esperavas minha dor e te magoaste com minha indiferença? Não sou indiferente. Odeio apenas a imprecisão, o escuro onde não sabemos se é excremento que se prende em nossos sapatos. Tens de mim esta experiência com a vileza alheia. Nada me apavora. Só não vivo a remoer incertezas. Agora tudo se clareou: és uma vadia. Aceitas mais um copo de vinho?
- Agora foste longe demais! Um pouco de polidez com a minha honestidade de te expor tais abjeções! Se te chamei para este encontro foi pela vontade de ser mais transparente possível contigo.
Ela estava exaltada, seus dedos tremiam. Nunca a vi dessa forma. Sempre parecia tão segura. O que esperava que eu fizesse. Caísse aos seus pés com o peso da sua traição. De repente eu quis atiçar seu fogo maldito. Brincar com a sua vergonha, explorar sua humildade com gosto de culpa. Até por que eu era o corno da história:
- Conta-me como foi esta nova experiência. Foi homem ou mulher? Ambos?
- Não me atormenta que eu vou embora...
- Eu até preferia que me tivesses trocado por uma vulva. Digo-te de coração! Pelo menos algo que eu não posso te ofertar. Ou dois membros fálicos simultâneos, coisa que jamais poderia te dar, por questões fisiológicas e, também, por eu ter certa aversão ao ato sexual com mais de duas pessoas.
- Tu és um porco. Dilacerando minha integridade de revelar-te meu deslize...
- Mas adivinhei por teu olhar rançoso. Esconderias o quê? Há muito tempo tua alma e teu corpo se abriam com parcimônia, teu céu e teu inferno emaranhados no olhar culpado e distante, no desprazer. Tua vulva fria e inócua, latejando o crime. Faz dela agora o que bem entender! Expõe como arte pós-moderna pro teu bel-prazer, que eu sou indiferente. Põe cores vivas em teus pelos pubianos, piercing nos lábios da tua adorável flor carnívora e carnuda, dá mais e mais vida para teu atrativo maior...
- Quer saber de uma coisa: conheci um homem. Enfatizo a palavra homem. Quando, depois da tempestade vislumbrares o espelho, lembra o que agora te digo: Homem! Não uma criança afeita às púberes impressões do crepúsculo, as enfadonhas crises de ordem existencial. Ele me acende, me bate, com a força de um herói helênico semeia meu corpo com um calor branco e sacro, explora lugares que nunca te ofertei por não seres herói sequer da tua malfadada insônia. Eu não preciso da tua afetação merencória, dos teus desgastados carinhos. Quer de saber algo mais? Vai pra puta que te pariu.
- Agora sim, mostra-te sem disfarces...
- É isso mesmo, e digo mais: não és pederasta por falta de coragem, que te resguardou de mais esta distorção. Mãos delicadas, livros, um eterno cansaço às coisas práticas da vida.
Eu por dentro achava graça, tudo que ela sempre quis dizer, uma torrente de desafeto...
- Tenho nojo dos teus beijos, nojo das tuas cuecas sem elástico, nojo do barulho que fazes quando escovas os dentes, nojo da tua família, das tuas músicas pernósticas, da configuração imunda do teu apartamento, nojo da baba no travesseiro enquanto dormes. Profunda raiva do teu silêncio, desse teu maldito olhar desanimado, das tuas indolências estóicas, dos teus sábado à tarde, do teu vício por cinema europeu, desta tua altivez de ex-plebeu vingativo, da tua barba mal feita, dos teus olhos doentios no prazer fugaz de um cigarro.
Eu não podia levar a sério aquilo tudo. Desesperos de uma jogadora imberbe. Eu terminava outro copo de vinho. Pedi outra garrafa e cinzeiro para a garçonete que atendia com cara de nojo. O chão já estava cheio de tocos de cigarro. Se resolvesse contá-los, teria o tempo que tragávamos naquela insólita brincadeira. Acendi mais um. A fumaça era leve, o aroma do tabaco, queimando lentamente, era o tempo que não cansava de queimar, era ela, que queimava e se desfazia em cinzas pelo chão, se desfazia em fumaça flácida como um pano etéreo, plúmbeo, exalando tristeza e raiva do olhar. Enchi o copo dela. Estava melancólica. Pegou um cigarro do meu maço. Acendeu com mãos imprecisas. Tomou o que lhe restava em seu copo num único gole. Pegou a garrafa e encheu novamente...
- Fala alguma coisa, pelo amor de deus! Disse ela.
- Se houvesse algo mais para dizer, mas resumiste a questão.
- Não te magoaste com o que eu disse?
- Claro que não! Eu esperava muito mais. Sempre foi teu sonho esvaziar por ima de mim as palavras da tua coleção de desaforos. Mas eu não te odeio.
- Tu também não me odeias. Se me odiasses, já terias ido embora, disse ela, como se fosse uma súplica.
Olhava para o horizonte como se quisesse fugir dos meus olhos. Começou a brincar com o isqueiro em cima da mesa, depois mexeu nos cabelos, descruzou as pernas. Cantarolava uma canção do Heart.
- Ah tão linda esta música, tivera eu asas, voava às alturas da melodia, tu não achas? A música sublimando as chagas e as nódoas na alma, pudesse eu ser leve...
Uma loucura trágica que se estendeu a um pranto estreito, cheio de humildade. Entre soluços, dizia coisas estranhas:
- Fala alguma coisa, pelo amor de deus! Disse ela.
- Se houvesse algo mais para dizer, mas resumiste a questão.
- Não te magoaste com o que eu disse?
- Claro que não! Eu esperava muito mais. Sempre foi teu sonho esvaziar por ima de mim as palavras da tua coleção de desaforos. Mas eu não te odeio.
- Tu também não me odeias. Se me odiasses, já terias ido embora, disse ela, como se fosse uma súplica.
Olhava para o horizonte como se quisesse fugir dos meus olhos. Começou a brincar com o isqueiro em cima da mesa, depois mexeu nos cabelos, descruzou as pernas. Cantarolava uma canção do Heart.
- Ah tão linda esta música, tivera eu asas, voava às alturas da melodia, tu não achas? A música sublimando as chagas e as nódoas na alma, pudesse eu ser leve...
Uma loucura trágica que se estendeu a um pranto estreito, cheio de humildade. Entre soluços, dizia coisas estranhas:
- És um covarde, porque não lutas por mim, a melhor coisa que apareceu na tua vida, eu te amo desesperadamente, se te traí, foi para acordar teu zelo, mas tu permanece indiferente...reage, diz que me ama...!
Eu de repente me senti responsável por aquele trágico jorro de sentimentalismo, por ter feito graça à infantilidade dela, que sempre gostou de ser bajulada com a palavra amor, nunca se cansou das rimas pobres que tal palavra remete, nem dos enxames de incongruência ocasionada por esta aborrecível falácia. Por um momento senti pena daquele contra-senso feminil. Levei minha cadeira perto dela e lhe beijei o rosto numa clemência calma e ela violentamente encostou seus lábios nos meus num abandono extremo, apaixonadamente. Meus lábios que há uns minutos atrás ela disse ter nojo. Infeliz mulher, que queda vertiginosa, que salto no escuro. Antes de terminar a peça, eu lhe disse, para amenizar as coisas:
Eu de repente me senti responsável por aquele trágico jorro de sentimentalismo, por ter feito graça à infantilidade dela, que sempre gostou de ser bajulada com a palavra amor, nunca se cansou das rimas pobres que tal palavra remete, nem dos enxames de incongruência ocasionada por esta aborrecível falácia. Por um momento senti pena daquele contra-senso feminil. Levei minha cadeira perto dela e lhe beijei o rosto numa clemência calma e ela violentamente encostou seus lábios nos meus num abandono extremo, apaixonadamente. Meus lábios que há uns minutos atrás ela disse ter nojo. Infeliz mulher, que queda vertiginosa, que salto no escuro. Antes de terminar a peça, eu lhe disse, para amenizar as coisas:
- Assumo a culpa! Agora é tarde para tristeza e arrependimentos. No fundo sei que a culpa foi minha, apesar da traição ter sido tua. Eu acho que nasci para ser sozinho, mesmo. Tua traição foi um efeito natural. Acontece. Antes de deixá-la falar qualquer coisa, fui até o balcão de atendimento, pedi mais uma garrafa de vinho e paguei a conta. Voltei à mesa, dei um dinheiro para o táxi dela.
- Eu vou ficar por aqui, bebendo mais um pouco. Enquanto isso tu vais ao meu apartamento e pega o que for teu. Deixa a tua chave com o porteiro.
- Então acabou? Ela perguntou - com resquícios de lágrimas nos olhos. Apesar da dor, estava bonita. Já não havia peso para carregar. Ela era o alívio com olor de vazio. Tão bonita como na primeira vez que a vi, noutro tempo. Mas tinha acabado. Ela saiu e se despediu apenas com um olhar. Voltaria para a casa de sua mãe, que sempre me odiou. Foi até a esquina onde havia um ponto de táxi. Partiu sem maiores sinais.
- Sim, acabou, respondi sozinho, quando ela já havia ido embora. Mais uma tentativa frustrada. Sem grand finale.
quarta-feira, 25 de dezembro de 2013
A canção de amor do jovem Almafuerte
Não imploro amor
Não mais, nunca mais!
Cinco quedas-livres são
suficientes
Para recuperar a aspereza.
Um e-mail às cinco da manhã
Diz que tudo foi derrogado
De uma forma tão cálida
Que o riso suspende a lágrima.
Angioplastia sem anestesia
Ao fim de cinco doses de felonia
Já não sinto dor.
A carótida é uma rosa
espedaçada;
Há um projétil cravado na
coluna vertebral
Mas não sinto dor
‘Stou áspero & duro
Como esmeril.
Encho o rosto de cicatrizes
Com um prego enferrujado;
Ser belo qual um cavalo morto!
Atrativo como cem caveiras
brancas
Num mausoléu...
Tudo derrogado
Sou a solidão nos cafés
A borrasca das tardes
pelotenses
Sem máscara sem mágoa
Um leve desconforto
De arame enfarpado na uretra
E uma xícara árida de deserto.
Cinco tentativas vãs de
suicídio
Cinco tenebrosos intentos de
amor
São mais que suficientes
Para cinco vidas.
Cinco da manhã
Eu amanheço
Enfim.
Não imploro amor
Não mais, nunca mais.
sábado, 21 de dezembro de 2013
Canção do amor oblíquo
A rua replena de gente
Todas com aspecto de estorvo
Trombando entre si
Atropeleiro, boiada solta,
Possuída
Pelo demônio de possuir
Natalíptico vespeiro
Animosidade nos olhares
Embrutecimento
Truculência nos gestos
Semelhavam fugir do Vesúvio
De repente percebi:
Havia perdido um dos meus sapatos
Ao procurá-lo
Fui derrubado
Pisotearam meu corpo magro e arcaico
Meu rosto, meu púbis, minhas pernas
A dor me fez apagar
Quando acordei, noutro tempo, era deserto
O sol batia nas minhas sobras
Eu era deserto
Sem rosto, sem dentes, sem serventia.
O que sobrou de mim, atirei à tua janela
Quebrou teu vidro
E o meu coração.
Quase
mudar de bairro
cidade
estado
país
continente
… Mudar…
o modo de vestir
a escassez
do
sorriso
a forma de olhar
trocar de rosto
a casta do desgosto
mudar
esta mudez
esta nudez de palavras
frases feitas engastadas
na complacência
da espera
mudar de vez
sem quando
ou jamais
ser mais
que a sombra envergonhada
que se descobriu nada
quase
tarde demais
mudar de bairro
cidade
estado
país
continente
ou ser puramente
o que sempre fui
sem ter sido
quinta-feira, 19 de dezembro de 2013
Aniversário
Entristecia-me ao perceber
Que o dia do meu aniversário estava terminando...
Por um dia fui especial!
Por um dia ganhei abraços!
Foram expressões afáveis
Por um dia!
Por um dia tive o constrangimento contente
De cantarem parabéns para mim
Por um dia fiquei tímido e lisonjeado
Pois tudo era em minha homenagem
Os olhares que sorriam...
O bolo colorido...
No outro dia
A vida voltava ao normal
Tornava-me cotidiano
Tão cotidiano
Quase invisível
Recebendo o cumprimento frouxo
O olhar murcho
Bom dia enferrujado
E sem força.
E precisava esperar mais um ano
Para me tornar digno de receber sorrisos
E cumprimentos afetuosos
Um ano para me tornar
Especial...
Ah, seria ótimo, pensava,
Fazer aniversário todos os dias
Mesmo que somassem números à idade
Números são nada
Mas a alegria de estar de aniversário
É imensurável!
Imensurável?
Do tamanho de sonhar, digamos...
Imensurável?
Digamos que seja agradável jogar
Imensurável
Quiçá, um afago social.
De repente, a criança cresce
E se dá conta que é pequena
E não significa nada
Somos números nos nossos documentos
Números são tudo.
Mais certo, afinal
É não fazer aniversário!
Que esqueçam a data que nasci
Esqueçam minha idade
Sem mais expectativas infantis
De esperar um ano
Para ser especial
Por que - afinal
Não sou especial!
Que o dia do meu aniversário estava terminando...
Por um dia fui especial!
Por um dia ganhei abraços!
Foram expressões afáveis
Por um dia!
Por um dia tive o constrangimento contente
De cantarem parabéns para mim
Por um dia fiquei tímido e lisonjeado
Pois tudo era em minha homenagem
Os olhares que sorriam...
O bolo colorido...
No outro dia
A vida voltava ao normal
Tornava-me cotidiano
Tão cotidiano
Quase invisível
Recebendo o cumprimento frouxo
O olhar murcho
Bom dia enferrujado
E sem força.
E precisava esperar mais um ano
Para me tornar digno de receber sorrisos
E cumprimentos afetuosos
Um ano para me tornar
Especial...
Ah, seria ótimo, pensava,
Fazer aniversário todos os dias
Mesmo que somassem números à idade
Números são nada
Mas a alegria de estar de aniversário
É imensurável!
Imensurável?
Do tamanho de sonhar, digamos...
Imensurável?
Digamos que seja agradável jogar
Imensurável
Quiçá, um afago social.
De repente, a criança cresce
E se dá conta que é pequena
E não significa nada
Somos números nos nossos documentos
Números são tudo.
Mais certo, afinal
É não fazer aniversário!
Que esqueçam a data que nasci
Esqueçam minha idade
Sem mais expectativas infantis
De esperar um ano
Para ser especial
Por que - afinal
Não sou especial!
domingo, 15 de dezembro de 2013
Um, Dois, Três...
É apenas um conto ou um exercício neste gênero. Ficção. O fato de um dos personagens ter meu nome é mera coincidência. Nada mais.
Sentado num dos
bancos da praça, num momento em que é permitido pensar. Intervalo do trabalho,
depois do almoço; coisas aconteciam em mim.
Em outro banco,
a minha frente, uma moça sentada, com olhar distante, perdida em pensamentos,
também. Uns vinte e poucos anos. Vestia-se discreta, sem roupas em voga, usava
uma sandália aberta, que dava para ver que tinha pés bonitos e bem cuidados. Os
olhos expressivos, que transpareciam inteligência e qualquer acento
melancólico, que provocava charme singular. Um rosto bonito, mas sem gritar
beleza. Era preciso olhar atentamente para entender que era bonita. Aquele tipo
de rosto que quanto mais se olha, mais se percebe nuanças que encantam, mas
podem passar despercebidas para os menos atentos. Pernas cruzadas. Segurava um
livro fechado.
Levantei e pedi
com delicadeza para sentar ao seu lado. A garota fez um silêncio que era
surpresa e susto. Disse sim, tremulamente. Falei para ela:
- Sabias que até
hoje não fui amado. Não falo por autocomiseração. Falo por dizer – Ela me olhou
com desconforto. Já parecia bem desconfortável com minha presença ao seu lado.
O espanto só aumentou. Foi se afastando lentamente para beira do banco de
cimento, a fim de manter distância. Talvez ela pensasse em sair correndo, ou
chamar algum guarda. Eu insisti:
- Verdade. Nunca
fui amado, no entanto amei bastante, até sentir o coração igual um trapo inútil,
pisoteado, defecado por cães. Ela respondeu:
- Moço, não
estou entendendo nada. Há algo surreal aqui. Deve ser uma espécie de sonho
maluco. Tu não existes. Mas se existes, o que tenho a ver com isso de ninguém
te amar?
-É simples –
respondi – Não fui amado. Até agora fui um desses isopores que vem em caixas de
produtos eletrônicos para preservá-los. Depois de sair da caixa não valem nada.
Ninguém sabe o que fazer com eles. Bem, gostaria de saber teu nome...
Ela hesitou como
se estivesse escolhendo a melhor forma de se livrar daquela conversa. Por fim,
disse:
-
Clarice.
-
Engraçado –respondi - o mesmo nome da autora cujo livro tu estás segurando.
-
Sim, coincidência – disse Clarice (agora já sabia o nome dela ou seu nickname.
Pelo menos podia me dirigir a ela através de um nome) – Mas, olha, moço, eu já
vou indo. Tenho que trabalhar, meu horário de intervalo tá acabando...
-Clarice,
peço desculpas se te assustei com meu jeito imprevisto, com minha abordagem
fora dos padrões. Fica mais um pouquinho. Por acaso tu já amou? Já foste amada?
-
Ah, que pergunta! – retrucou ela – Será
que tu não és um maníaco ou coisa parecida?
-
Te asseguro que não – respondi. Se fosse, eu seria muito mais convencional. Os
maníacos que andam aí sabem perfeitamente, mais que ninguém, assumir
normalidades. Vai um conselho: nunca acredita numa pessoa excessivamente normal
e de atitudes e palavras retilíneas. Claro, se eu fosse um maníaco ou algo
similar, não iria te dizer. Existem maníacos, também, excêntricos que nunca
foram amados e relatam isso para uma estranha. Então, acho que tua dúvida
permanece, não é?
Meu quase-humor, minha semi-piada fez
com que Clarice saísse um pouco da defensiva.
-
Então, Clarice, o que achas da situação: nunca fui amado. Sou um pêssego que
fica num prato, esquecido e perece, sozinho. As pessoas olham com certo nojo,
mas esquecem ou têm pena de pôr fora...
-
Ah, Deus, como és insistente, moço. Eu não imagino por que não foste amado. Sei
lá. E a tua mãe, não te amou?
-
Mãe não vale! Visto que me refiro ao
amor homem-mulher. Aquele que desde que o mundo é mundo, é tão falado e rimado
em poemas, sonetos e canções. Antes de Petrarca, Catulo. Já leu Safo?
-
Não conheço Safo nem Catulo. E, sinceramente, não sei por que não foste amado!
Nem te conheço, para começo de conversa!
-
Meu nome é Leonardo. Agora já sabes meu nome. É um começo. Então, por que será?
- Sinceramente
não sei. Há Pessoas sozinhas, como Eleanor Rigby, daquela canção dos Beatles.
Muitas são excêntricas demais ou cheiram mal ou simplesmente não nasceram para
esse tipo de amor que tu falas.
-Será
que eu cheiro mal? Ela sorriu. Consegui um primeiro sorriso de Clarice, minha
nobre desconhecida! Ela disse:
-
Não, tu és até bem perfumado! Mas sinto que fumas. Diminui um pouco tua
qualidade de rapaz cheiroso.
-
É, Clarice, acho que não nasci para o amor...
-
Ou és excêntrico demais. Tua abordagem me assustou. Pensei que fosse um maníaco.
Ainda tenho cá minhas dúvidas... Do nada tu vens com esse papo de amor, não ser
amado. Algo que fica entre a imaturidade e a loucura.
Eu me fechei um pouco. Alguns segundos.
Mas continuei, segurei o desconforto e segui conversando:
-
Clarice, tu és a primeira pessoa com a qual falo estas coisas. Tenho amigos e
amigas e nunca me aprofundei em revelar essa ferida que tenho. Quando perguntam
sobre minha vida afetiva, digo: “vai indo”. Mas olhei nos teus olhos. Tu, teu
livro da Clarice Lispector, esperando não sei o quê. Senti que eras a pessoa ideal para confessar
essa dor. E não creio que seja infantil ou maluco. É um de nossos temas mais
importantes. Nossa vida gira ao redor de trabalho, realizações pessoais e,
entre elas, está o amor como ponto central. Os mais hedonistas, bem no fundo,
esperam amar de verdade, um dia. A costureira viúva, de idade avançada também
pensa no amor e sente o vácuo de ter um lado da cama vazio. Hoje parece que
virou tabu falar de amor entre pessoas civilizadas, com um pouco de cultura.
Fala-se em concurso, prosperar, comprar carro, casa... Mas voltando: achei que
podias me ajudar...
-
Quer saber, Leonardo, também ando desacreditada no amor. Estou ficando com um
cara. Ele é bem atraente e temos uma intimidade que atende as expectativas, mas
falta algo. Deve ser o amor. Ou palavras. As palavras são escassas entre a
gente. É preciso forçar a mente para engendrar um assunto. É artificial. Definitivamente, não há amor!
-
Vocês têm um compromisso? Algo assim? Só curiosidade...
-
Para falar a verdade, não. De vez em quando ele me liga. E, sabe como é, estou
sozinha. Damos uma volta e então engendramos o grotesco ritual. Mais ou menos
como animais, porque não há uma ligação verdadeiramente carinhosa. Para mim, o
mais importante não é o sexo em si, mas o carinho e, principalmente o afeto que
vem depois. Um abraço prolongado e uma espécie de mágica que não acontece com
ele. Depois, chego a me sentir culpada. Mas passam umas duas semanas e a
carência me faz ceder. Agora estou determinada a acabar com isso.
-
Comigo acontece o mesmo. O Sexo fica burocrático sem um carinho maior. Não sei
se é idealizar demais. Na verdade, sexo também é uma necessidade, assim, como
as necessidades fisiológicas menos poéticas. Embora nunca tenha sido amado, já
fiz sexo, óbvio. A última mulher com quem me envolvi era casada. Prometeu que
se separaria para ficar comigo. Levei duas semanas para cair na real e
descobrir que ela jamais faria isso. Ela era ótima na cama, mas não me amava.
Eu era a aventura dela. Seu bicho de estimação. Eu saí a tempo de não me
apaixonar. Fugi. Ela disse que eu era puto. Nossa, como chegamos nesse assunto?
-
Ah, não sei. Foi tu que começou, Leonardo. Mas tudo bem, acho que tens razão, é
um assunto importante no qual gira boa parte dos nossos pensamentos. Amar, ser
amada. O valor do sexo...
-
E tu já chegaste a amar de verdade, Clarice? Foste correspondida?
-
Acho que umas duas vezes, para valer. Não sei se fui correspondida, mas
aconteceu. Com o primeiro foram dois anos de namoro. Eu me doei toda na relação,
mas ele era meio indiferente. Não sei se era o jeito dele de gostar... Parecia Mersalt, sabe aquele livro do Camus,
não lembro o nome. Nunca me negou nada, mas sempre dizia, “para mim tanto faz”.
Foi fácil discutir a relação com ele e acabar. Ele simplesmente disse: “quer
acabar? Para mim tanto faz...” Nunca esperaria nada diferente dele. A situação
era séria, mas tive de rir. Claro, chorei dois dias, mas passou. Já o segundo,
e último, antes desse cara que estou ficando, não aconteceu nada. O amor
adormeceu nos campo da idealização. Ele era querido, mas bastante tímido e eu
não sou muito de correr atrás. Homem tem que ter um mínimo de atitude. Claro,
esbocei alguns recursos não verbais. Olhares, sorrisos, sempre fui simpática,
um pouco mais do que o natural. Não deu certo. Hoje ele está na Inglaterra
fazendo pós-graduação em não sei o quê. Não me interessa...
- E este livro?
Gostas de Clarice Lispector? Eu gosto muito desse título...
- É leitura
obrigatória. Estou estudando para fazer outro curso superior. Sou professora de
Geografia, mas não estou feliz com a profissão. É desgastante. Eu era nova
quando fiz vestibular. A maioria das pessoas são novas demais quando se veem
obrigadas a escolher uma profissão. Tive uma professora no ensino médio que foi
o máximo para mim. Acreditei que funcionaria comigo...
- Uma pena que não
estejas contente com a profissão. Quanto ao livro, tenta ler com carinho, ela é
especial, lírica, etérea. Faz com que nos aprofundemos na nossa subjetividade,
seja por espelhamento ou por negação. Não pensa como leitura obrigatória.
Alguns livros tem poder de acrescentar algo positivo ao nosso ser. Quando se termina
bom livro, a gente não é a mesma pessoa que começou a ler.
- Tudo bem, ótimo
discurso, Leonardo, mas um livro pode nos introjetar coisas negativas.
Desestabiliza nosso mundo. É tão difícil
atingir certo equilíbrio emocional e vem um livro para desmoronar tudo. Pôr a
gente em crise... Hoje em dia prefiro ler coisas amenas. Romances “água com açúcar”.
Lembro que Kafka me adoeceu...
- Te entendo
perfeitamente. Mas às vezes isso pode ser receio de encarar as grandes questões
que movem a nossa existência. Ignorar certas coisas não resolve o problema. E o
mundo não é nenhum mar de rosas. Muitas vezes parece que encontramos o
equilíbrio, mas apenas estamos de olhos fechados. Há gente que dorme em
papelões na rua. Há pessoas em pânico, que tem medo de ir ao supermercado. Há
gente viciada em remédios para ansiedade, alcoólatras, adictos de substâncias
mais fortes. A batalha espiritual ou psíquica é terrível, mas tem de ser
enfrentada. Ignorar isso não nos faz melhores. Vivemos em crise, existenciais,
profissionais. Tu não me disseste agora a pouco que queres mudar de
profissão? Este é o mundo. Não é belo,
mas é o que temos. Aliás, o que pretendes estudar?
- Psicologia. É,
sou meio contraditória, tenho que admitir. Com medo de adentrar no mundo denso
da Clarice, mas quero fazer psicologia. Léo, acho que posso te chamar assim,
né? Meu nome não é Clarice. É Débora. Clarice foi o primeiro nome que me
ocorreu, olhei para a capa do livro... Desculpa.
- Capaz. Eu
também ficaria na defensiva se estivesse em teu lugar.
- E tu, Léo, teu
nome é Leonardo, mesmo?
- Sim, mas quem
conversa contigo agora, encantado com teus olhos, é Nei Percival! Ela ficou
assustada novamente, depois de uma conversa tão fluida. E foi logo dizendo:
-Poxa, agora me
deixasse confusa. Explica isso! É esquizofrenia que tu tens?
-Bom, Débora,
vou tentar explicar. Sempre tive uma personalidade virada para dentro. Sempre muito
tímido, calado. Em contrapartida, minha mente um parque de diversões. Sempre em
ebulição, buliçosa. Mas nunca consegui externalizar minha persona verdadeira, em sua totalidade. Sabe: medo, insegurança.
Desisti de saber as origens desse mal que sempre me acometeu. Sempre fui
anulado. No entanto pensamento e personalidade estavam ali, latejantes. Eu já
vinha pensando nisso há dias. Não é nada original: depois de Homero, nada é
original. Minto, Homero só compilou histórias que já existiam e criou seus
monumentos literários. Mas voltando ao meu plano. Uma espécie de
despersonalização: na verdade continuo sendo eu, mas sem o medo e a
insegurança. Sempre lutei contra isso e fui vencido. Eu precisava mudar. Para
minha sobrevivência. Mas para não se tornar algo assustador, criei o Nei
Percival. Na verdade ainda tenho dúvidas quanto ao sobrenome: Parsifal talvez
soe mais elegante. Resumindo. Sou eu, em essência, sentimentos, mas agindo como
outro.
- Fiquei
confusa. Agora a conversa parece mais maluca do que no início. Então estás
fingindo desde o início?
- Não, jamais. Sem
Percival eu teria me interessado por ti da mesma maneira e me imaginaria
tentando conversar contigo, pedindo para sentar ao teu lado, começar uma boa
conversa. Mas tudo ficaria no palco da imaginação, por que eu, Leonardo, sou
tímido. Mas Percival não é. Débora ficou
pensativa por uns segundos. Depois disse:
- Isso me lembra
daquele negócio de heterônimos do Fernando Pessoa.
- É, não deixa
de ser parecido. Bom, pensando bem, Fernando Pessoa, ele mesmo, era Álvaro de Campos; precisou da máscara para se desmascarar
e escrever o que realmente sentia. É uma hipótese, apenas. Mas se aplica ao meu
caso.
- Léo, tu és
singular. E desde quando começaste a usar esse tal de Percival?
- A partir do
momento que me levantei do meu banco para vir falar contigo.
- Ah, então sou
a primeira vítima do Percival? Mas por que foi exatamente nesta ocasião?
-Dois motivos: o
primeiro foi uma longa conversa que tive com a morte, antes de tu chegares e
sentar à minha frente. Primeiro lembrei que há dez anos, eu estava aqui
sentado, no mesmo banco, no intervalo do trabalho. Então descobri que dez anos
passaram como se fosse um dia. Menos, até; alguns minutos. O mesmo cara
inseguro que sentou aqui dez anos atrás estava novamente sentado, segurando
dentro de si um amalgama de pensamentos e tolhido na insegurança. Com muito a
dizer, mas sem atitude...
- Mas Léo, e a
morte...
- Pois é, a
morte é isso. Deixar que o tempo passe enquanto nos acomodamos num banco de
praça durante dez anos sendo a mesma pessoa. Não quero dizer que não goste de
ser quem sou. Mas faltava um pedaço importante: um pouco de coragem, atitude...
Pensar é bom, cogito ergo sum, mas
pensamento sem ação é uma energia desperdiçada. Se não houver ação, não há por
que pensar. Mas o nascimento do meu outro eu que é eu mesmo foi impulsionado
por ti. Este foi o segundo motivo. Ele veio à tona quando te vi; sabe, muitas
vezes perdemos a chance de dizer uma palavra a alguém que de repente pode ser
importante para nossa vida. A gente sonha todas as noites, pede a não sei qual
deus que ponha no nosso caminho pessoas especiais. Provavelmente encontramos
pessoas especiais em todo lugar: no ônibus, no trabalho, no supermercado. Mas
fica por isso mesmo, por que não tentamos nada, sequer um sorriso. Ou falar uma
banalidade para iniciar um assunto. E realmente achei que seria perder uma
grande oportunidade se te olhasse e te admirasse em silêncio. Senti algo
especial na tua pessoa, no teu olhar. Provavelmente tu serias uma dessas
pessoas especiais que a gente olha uma vez e não diz nada e elas simplesmente
desaparecem. Nei Percival surgiu
impetuoso, pois como te disse, sou tímido. Perguntei para ele, “mas e aí, o que
vamos dizer?” “A primeira coisa que vier na cabeça”, ele falou. Foi
assim. Em bem poucas palavras, foi o que aconteceu.
Débora ficou pensativa. Por fim disse:
-
E aí, valeu a pena a metamorfose? Gostou de me conhecer? Será que sou especial?
Porque se tu continuar usando essa
tática, podes conquistar várias mulheres.
-
Eu consegui te conquistar, Débora?
-
Claro que não, bobalhão! Eu acho que quando me formar em psicologia vou te
atender. Ela riu, para enfatizar que se que estava brincando.
-
Ahahaha, tu é gentil querida. Claro que gostei de te conhecer. Eu não sou
espiritualizado em porcaria nenhuma. Mas creio que nada é por acaso; é uma
coisa como instinto que me que diz isso. E o fato de teres conversado comigo,
prova que és especial. Eu cheguei da pior forma possível. Eu ou Percival sei
lá. Também estou confuso. Poderia ter começado falando das flores que nascem
nestas árvores, a esta época do ano e que elas ficam bonitas quando caem no
chão, formando um tapete. Teria sido mais sutil.
-
Verdade. Mas te confesso que fui ficando. Poderia ter ido embora. Acontece que
tua conversa inusitada me despertou, apesar do espanto inicial. Não aprecio clichês.
Apesar de parecer louco, tu não és um rapaz lugar comum. Tens algo diferente
que eu gostaria de descobrir. Mas não pensa que me conquistaste. Bom, agora
tenho que voltar para o trabalho. Muita aula pela frente, alunos indisciplinados...
Prazer em te conhecer, Léo.
-
O prazer foi meu, Débora. Por acaso não queres tomar um café comigo depois do
teu expediente? Que horas tu te liberas?
-
Café... Contigo... Não sei não... Meu expediente acaba às 19. Mas ainda acho
que és maluco.
-
Vamos, Débora! A conversa está tão legal, seria ótimo continuarmos...
-
Tá bom, vamos. No Expresso, pode ser?
19:15...
-
Combinado!
-
Só nós três, hein!
-
Como assim, Débora? Vais convidar mais alguém?
-
Eu, tu e o teu heterônimo: Perseu, Percival, Parsifal, sei lá.
Eu sorri. Dei-lhe um beijo no rosto. Ela
foi embora e eu acompanhei seu passo lento e sinuoso; eu estava em transe.
Finalmente era um dia feliz.
sábado, 14 de dezembro de 2013
Depois de dez anos, respondo tua carta...
Não, querida, não creio que seja
loucura. Como creio, também, que não é loucura te responder somente 10 anos
depois. “O eu é outro”, já dizia Rimbaud. Que essa citação sirva de mote para o
começo dessa conversa.
De lá para cá, a configuração da
minha vida mudou bastante. 10 anos tem um peso imensurável em nossas vidas, sob
muitos aspectos. Mas te digo que continuo perdido. Há muita névoa e uma
mitologia obscura, obra do medo, da insegurança que ainda me assalta. E muitas
vozes. Provavelmente eu esteja mais perdido do que antes.
Eu? Quem eu sou, afinal? Se não
descobrir a tempo, pratico a autofagia.
Lembro que tua carta era para
Almafuerte. Mas o Léo também tomou a liberdade de ler. Na época eu era mais Léo
que tudo nessa vida. Léo se sobrepôs ao Almafuerte e seguiu sua vida de
excessos, buscando a embriaguês e a luxúria que tanto almejava. Talvez não
tenha dado crédito às linhas que me escreveste, na melhor intenção: a cura.
Mas Léo acabava sempre sozinho,
apagado numa parada de ônibus, caído em algum banheiro sujo, todo manchado de
vinho e vômito. Nunca conseguiu a vida luxuriosa porque, na maioria das vezes, era
um bêbado asqueroso.
Houve uns 2 anos de intervalo: Almafuerte amou e perdeu a personalidade por inexperiência
no amor. Guarda boas lembranças. O tentame o ajudou a crescer, ou a ser menos
ingênuo. Mas acabou. Acabou porque tudo na vida é provisório.
Léo voltou! Fez louvores: foi
expulso de bares, usou liambas, mijou em uma igrejas e continuou órfão da
luxúria. Chorou. Enganava-se com uma sexualidade solitária.
Esporadicamente Almafuerte
voltava. Apaixonando-se fácil, igual donzela fictícia de livro para moçoilas; amargando
amores não correspondidos. Almafuerte sempre foi o autor: é dele a
sensibilidade para a poesia, à música. E é ele que lê e se deleita com bons autores
e boa música. No entanto, não sabe esconder que é vulnerável demais.
Há duas notícias:
Léo está morrendo! Parou de
beber, de sair. Tornou-se uma freira. O que sobrou dele é a virilidade agreste,
mas contida, oprimida, escondida, como moléstia vergonhosa.
Almafuerte, este está cada vez
mais escasso. Só escreve por extrema dor ou quando se sente vazio, igual uma
sacola nojenta de supermercado, voando ao gosto do vento. Tudo por que há um terceiro: Almada!
Almada dorme, esse é seu talento.
Um homem sem biografia. Funcionário público. Sempre cansado; é magro, de
fundilhos caídos e fuma 2 maços de cigarro por dia. E não se entusiasma com
nada. Titubeia sempre, não fala. Tem preguiça de pensar. Olha inerte para a
tela do computador. Lê bulas de remédios com volúpias de aumentar o seu tédio.
Léo vive numa penumbra. De vez em
quando sonha em morar num lupanar, sonha com mulheres carnudas, vulvas
aromáticas. Sente-se culpado por tais sonhos e volta para a Solombra.
Após intervalos, cada vez mais alongados,
Almafuerte abrolha. Escreve, tem planos mil. Produz deitado, bebendo chá de
alcachofra. Mas Almada toma dois Rivotril
e adormece Almafuerte.
Eu (ou nós?) sempre te invejei
(invejamos), querida. Uma inveja boa, se é que é possível um sentimento tão
contraditório. Pois a inveja é um anseio malfazejo. Admirei-te (fica melhor
assim). Viveste teu período de hedonismo quando tinhas que viver, foste
sensível quando tinhas de ser. Foste amada por muitos. Partiste corações. Era a vingança concretizada. Ainda há uma legião de apaixonados por ti. Os
10 anos te engrandeceram. Claro, não sei como estás por dentro. Espero que bem,
sem muitas inquietações.
Mas voltando as minhas personas: Almada comanda e ninguém ama Alamada.
É insípido, inodoro, sem cor. Tem a voz que como se fosse um pingo discreto
caindo da pia.
Minha esperança é Almafuerte. Mas
não sei se ele consegue sozinho. Sente falta do Léo. Apesar de todos os
defeitos, Léo possuía o olhar de leão, gritava com o violão em punho, como
metralhadora, sangrando as cordas vocais. Léo, que quando não estava em quase
coma alcoólico, era expressivo, simpático e bem-humorado. Parecia ter uma
personalidade forte. Mas hoje Léo é um epitáfio.
Tua carta terminava com os
dizeres: paz e harmonia.
Ainda não consegui ( ou conseguimos)
paz e harmonia. Hoje, sim, preciso da tua ajuda. Mais do que 10 anos atrás,
tempo em que eu estava absorto em ser Léo.
Acho que é Almafuerte que escreve
esta carta. Ele quer chorar no teu ombro. Se sente um desgraçado, embora seja
abençoado em muitos aspectos. E pede desculpas pela pequena demora em responder.
Post Scriptum: Nós éramos
incipientes demais para conhecer e adotar William Blake e Herman Hesse. Mas não
sei se faria diferença.
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