segunda-feira, 16 de maio de 2011

Subsolo

Prefácio assaz interessante  para Subsolo



Depois da leitura assídua de poetas como Rimbaud, Latréamont e Blake, me senti suficientemente inspirado para compor um texto em prosa poética, em forma fragmentada. Na verdade é um ensaio, um experimento. Os textos que me serviram de inspiração são todos bastante antigos, no entanto, pelo menos para meu entendimento, continuam sendo o que de mais subversivo a poesia nos deu. Na verdade, sem Rimbaud não haveria modernismo. Não haveria poesia Beat, Imagismo (Pound), etc.
 Mas o meu tema central  é contemporâneo ou, pelo menos,  é um tema recorrente que se aplica aos dias de hoje. O mal estar do indivíduo no mundo, sem maiores perspectivas, dando-se conta de que terá de enfrentar sua dor sem a presença da religião. Eu tenho certas dúvidas com relação à qualidade desse texto. Pode ser um amontoado de merda, mas é provável que tenha um certo valor. Na verdade eu não sou seguro com nada que tenha escrito. Mas ontem, lendo uma entrevista de T. S. Eliot, descobri que até um grande poeta como o autor de Ash Wednesday trazia consigo essa desconfiança: “Poeta honesto algum pode jamais estar inteiramente certo do valor permanente daquilo que escreveu. É possível que tenha desperdiçado seu tempo e feito uma mixórdia de sua vida a troco de nada”.

Estou me alongando neste prefácio e o leitor tem pressa. Mas já está acabando. Cabe dizer, finalmente, que esta não é a versão definitiva. Mas acredito que nenhum poema que postei neste blog esteja em sua versão definitiva. Na verdade essa é um ótima desculpa para a minha preguiça de aparar as arestas desses textos. Não posso dizer: ‘boa leitura’, para meus poucos leitores. Soaria irônico. Então, que vocês tenham a benevolência de ler este humilde texto. Obrigado...




I


Não sei como desci neste inferno. Talvez uma vida cheia de subsolos. Talvez uma angústia sangüínea, uma dor secular ausente dos livros de história. Talvez eu estivesse predestinado a esta aventura. Mas não sei. Se eu fosse bom, realmente, iria dilacerar meu orgulho nestas pedras, comê-lo como se fosse meu almoço. É possível viver sem vida espiritual, sem álcool, sem drogas?  É possível alimentar-se somente de auroras e silêncios? Se deus tivesse a decência de aparecer eu me converteria. Nunca fui calmo para desejar uma vida estóica. O que me resta é antecipar minha sorte. Se eu sobreviver, serei um faz de conta, uma figura cômica a minha própria consciência. A única solução é renascer. Aquém. Responsabilidade, eu cumpro, pontualmente, massacrada-mente, mas estou cansado, desejo me embebedar, uma embriagues eterna, para que eu possa viver sedado neste artifício plástico que denominaram mundo. Por que deus sendo bom, cultivaria no meu coração tamanha aflição, tamanhos dilemas? Por que deus, existindo, não se preocuparia com sua ovelha desgarrada, não se preocuparia com os miseráveis, muito mais miseráveis do que eu e que só querem um prato de comida? Por que não me fez sem capacidade de questionar, de lamentar?  Há tantos felizes que passam por mim, sem palavras amargas, sem dores na alma, apenas vivendo seu pedaço de existência. Por que não me fizeste assim? Por que ainda falo com um conceito, por quê? Em verdade, trago este cancro da alma, peço escusas, sou um fugitivo do rebanho, sou fraco demais para me sujeitar ao matadouro. Sou forte demais para aceitar este pedaço de pó, esta cinza de meus falecidos. Eu não aceito. E me revolto, como um menino que não ganhou seu doce. Revolto-me como uma menina contrariada. Mas tenho motivos. Os melhores. Talvez assim tenha sido criada a arte. A imortalidade inútil. Uma forma vaidosa de tecer uma lápide em cada livro, em cada música. A beleza não é o sublime. A beleza é um conceito antigo masturbado por gregos e romanos sem mais o que fazer. Lanço um projétil contra a beleza. Ela me aflige, detesto ter que percorrer o mundo, ter que decifrar enigmas para trazer esta meretriz ao meu colo. De uma metade de mim fiz um espantalho. Da outra fiz um encéfalo pensante, predestinado ao fim paupérrimo de não encontrar nada.


II

Não encontro nada de interessante em minha infância. É inútil vasculhar. Sempre fui assim. Acho que nasci com vinte e nove. Sempre estive entediado. As TVs eram em preto-e-branco e os filmes dublados. Nem no inferno se admite filmes dublados. A casa tinha corredor, mas era inútil percorrer. Descendo escadas, descendo. Jamais consegui extirpar essa mácula de meus nervos. Depois, de meus versos. Amigos imaginários, conversas ao corredor com ninguém. Um passado de fantasias. Um passado mendigo - é escusado insistir.


III

Alimentei-me da covardia. Sustentei meus ossos sem fraturas não lutando. E se lutasse, faria diferença? A brutalidade da batalha humana, os ferimentos na pele, a mutilação, não são nada comparada ao desejo logrado do infinito. Eu sempre desejei o intangível. Como alguém consegue ter certezas, quando nenhum milagre é efetuado? Um fim de tarde é apenas a constatação que a noite chega para pôr os curativos em nosso sentimento esvoaçante e febril. Tudo está parado, ninguém limpa a alma dos tolos de suas escrófulas, ninguém ressuscita os mortos. Todos estão preocupados com o presente e o futuro, um teto, uma ração diária. E vendem livros com os mistérios desvendados. É nessas horas que seria bom ressuscitar! Mas será possível uma harmonia sem afetação mística, sem entorpecentes, sem anestesia? Alimentei-me de covardias. Tenho algumas guardadas comigo. Mas tenho a coragem de renunciar ao espetáculo grotesco e condescende. Todos aceitam os fantasmas e monstros e os colocam na mesa, junto à família, todos lêem à vigarice metafísica, e fazem compras exorbitantes e acumulam medo de ficarem entediado olhando para o pôr-do-sol e não encontrar nada além de uma luz dizendo simplesmente que todos morrerão um dia.  


IV

Como Blake queria ter descoberto uma grande verdade. Mas nestes anos de inferno, descobri nada, a não ser exaltar minhas dúvidas. Mas ah, como duvido daqueles com certezas. Não passam de embustes! Enganadores, pilantras das verborragias. Como podem saber tanto? De onde vem tanta certeza. Uma das palavras mais idiotas é certeza. Certeza de quê? Eu prefiro minha alma despedaçada a um templo consolador. A consolação verdadeira não veio. Pessoas morrem como insetos. O mundo engole os mais fracos, a verdade é que temos pouco tempo. Só isso. E a pragmática me aflige...


V

O que há de vida num quarto de hotel? O que há de verdade na existência fria de um condenado? Rilke não resumiu a questão? Eliot não foi suficiente claro? Pound não mostrou a verdade? Sei que passo os dias aqui, olhando pela janela. Às vezes, cedo ao ímpeto de sair. Deparo-me com a hostilidade do mundo, com a indiferença. Shakespeare definitivamente morreu, descubro, como um idiota. Volto para meu quarto de hotel.  Eu não faço diferença. Talvez eu seja a diferença em carne e osso. Mas na verdade ninguém faz diferença ou falta. O mundo está cheio de gente. Seria bom se existissem menos. É uma das razoes que me refugio em meu quarto. Queria eu ser forte, faria guerra a este torvo aspecto da noite, a este mudo aspecto do dia. Mas a vida está cheia de exigências. Não me conformo. Não quero competir, já que não sou melhor que ninguém. Nasci para tentar o infinito. Tudo que é menos que o infinito, me cansa. Estou cansado, muito cansado. Nunca conheci que estivesse tão cansado quanto eu. Entro no quarto, tiro a roupa, durmo nu. Louco para que a noite tenha piedade de mim e não me faça acordar. Era isso que eu dizia para a analista. Ela ria, como se eu fosse o primeiro. Na verdade ela só consegue fingir melhor. Coitada.


VI


Aos dezessete descobri o tempo. Quanta demora para uma constatação evidente. Obviamente o tempo é mais complexo que James Joyce. Mais antigo que Homero. Mas é uma descoberta, quando temos consciência do caráter impalpável do tempo e, ao mesmo tempo de sua voracidade, comendo entranhas de pessoas que amamos. A antítese é tola, como qualquer poesia sincera e menor publicada em jornaleco de província. Desde então meu algoz é o tempo, essa coisa que mal existe e nos devora, enquanto não escrevemos o livro que não venderá, mas será lido no infinito, enquanto não escrevemos a nona sinfonia de Bethoven. Sentimos inveja do medíocre que faz suas asneiras na página dominical. Ah, meus mortos, como pesa o fato de vocês terem morrido!   Como pesa o fato de que seremos esquecidos. Mais uma vez a vaidade! A fraqueza. Ou o pouso para quem não encontrou o espírito de deus se movendo na face das águas. Toda arte que diz a verdade, falseada em sua ficção não acalma a aflição. A arte é uma vontade de destruição. A verdadeira arte nos deixa em dúvida, pois questiona o que ninguém teve tempo ou paciência de questionar. É por isso que sofremos. Nós, condenados a sentir. Por isso nos atiramos nesse poço mais escuro que noite, sem chance para sobrevivência. Mas é muita pretensão acreditar na posteridade. O mais fácil é liberar essa angústia sem fim.


VII

Enquanto praticamos nossa burocracia de sermos o que convém, a vida segue. Enquanto nos revoltamos por sermos parvos, a humanidade nos aplaude com crucifixos e pregos, intercalando o seu aspecto demoníaco, com uma religiosidade vinda o esfíncter. Eu escrevo porque estou cansado, eu escrevo por que sou impelido pela enfermidade, o cinismo não me agrada. Estou velho demais para a revolta. Ah vida, não tenho imaginação suficiente para te criar.


VIII

As mulheres que amei. Todas rindo de mim agora. Vestidas como lhes convêm. Sorrindo com os melhores dentes possíveis, com os maridos mais cretinos possíveis. Me vendo abjeto, bêbado e sem forças para dizer duas palavras agressivas. As mulheres que amei, todas de mãos dadas com seus respectivos amantes, sobranceiros espectadores, desejando que eu me encolha ao infinito, para comprovar a tese comum, entre todos, de eu sempre vali menos que um inseto. Todas. As mulheres que amei. Por que amei tantas se tão poucas me amaram? Por que inventamos um coração ao longo da vida, por que inventamos amores e deuses e noites de orgasmo?


IX

Então eu era um traidor, um Judas. Por assentar minhas dores neste padrão contemporâneo de mágoa? Mal sabiam meu nome. Tinham lido Fitzgerald e o Kamassutra. Ou qualquer coisa inútil e vinham me importunar, “Isso é de verdade. Isso é mais sério que seu trabalho de distorção dos ventos. Empresta-me uma lâmina. Posso cravar em meu braço sem sentir dor. Por que doeria? Isso não fere. A dor está em escrever, sentir, olhar para a solidão da noite, numa constatação de que cada vez o mundo se torna mais abjeto, cresce a grande cratera da falta de sentido em tudo. Mas, finalmente, não perca o espetáculo. Chame o Corcunda de Notre-Dame, a princesa, seus poetas preferidos. Eles nunca escreveram no próprio braço com tanta desenvoltura. Nunca usaram o próprio sangue numa construção de verdade tão palpável” Assim eu anunciava minha destruição.


X

Mas que tanto dinheiro eu precisava? Não era necessário apenas uma caneta e um papel? Um bocado de palavras para angariar a janta? Mas eu precisava de mais: provar que a inutilidade é possível. Provar que seriedade é um abismo jocoso. Meu joelho doía. Minha alma apodrecia. Nunca quis carregar livros debaixo do braço. Eles é que se atiravam por cima de mim, com seu cheiro a bibliotecas seculares, com cheiro a mortos, que continuavam adoecendo das enfermidades da vida. Mas resolvi ser sério. Não se pode ser um idiota com vinte e nove anos. Me vesti com o verniz da instrução. Adornando minha vaidade e culpa, concomitantemente. E o mundo seguiu. E desconheço as guerras, os crimes de tal época de minha existência. Sei que eu estava quase morto numa maca, com um monte de gente dizendo que a agonia não era o fim, com o padre fazendo sinal da cruz. Sempre achei graça desse gesto, fazendo sinal de cruz. Que coisa abominável não encarar o próprio sofrimento. Mas isso tudo passou.  Depois de muito tempo, o inferno foi consumido, o céu consumado. Era um mal estar. Quando as graves escrituras foram queimadas, o inferno deixou de existir.  Não, a rebelião não é pecado de feitiçaria, pois a ira abre portas, a consciência desnuda os mitos. De vez em quando, faz-se necessário imolar alguns deuses, para o bem da espécie. O homem não deve temer nenhum senhor a não ser ele próprio. Com o fim da borrasca, ainda resta este mal estar. Estar aqui. Mas isto não tem cura.

                                Leonardo Alves

domingo, 15 de maio de 2011

Apontamento para uma canção de amigo

Amigo que o mar e o tempo apartou
Outrora intimo dos meus passos tementes
das minhas violetas sem cor

Sinto dizer
Mas não restaram saudades
Do teu agrado de mãos pesadas
Da seca relva no teu rosto
Tampouco dos contornos inflexíveis
Das tuas palavras
Semeando meu silencio

Doce amigo
Das gentilezas fáceis de rosas e versos
Depois da tempestade
De pedras e gritos

Sem tua presença
Meu leito é um descampado de tranqüilidade
Não mais o cenário de frias volúpias
Estende-se ao paraíso
Na suave ausência do teu corpo acerbo

Amigo tão gentil
Presente nas minhas doloridas preces
Ah! quando partiste
Reconstruí meu ser
ouvindo minha própria voz
e o murmúrio alado de Deus.


                                         Leonardo Alves

sexta-feira, 13 de maio de 2011

Infância

Quando eu era criança
Criei vários amigos imaginários
A família me olhava assustada
"Será que o guri precisa de psicólogo?"

Eu ainda lembro das vozes gestos
e das roupas que usavam meus amigos
E minha mãe dizer ao meu pai:
"Ele é só um menino sozinho"

Na casa antiga havia um corredor
Eu palestrava com todos
Os personagens irreais
Tão de verdade
E atrapalhava meu vô
Que estava vendo filmes de bange-bangue

Meu pai sempre trabalhando
Ou construindo sonhos e aviões
Minha mãe lendo romances
Mas uma vez ou outra
Eles ouviam minhas conversas
Com amigos imaginários
"Quando entrar pra escola
vai ter coleguinhas pra brincar"

Hoje eu tenho amigos virtuais
Falo com eles todos os dias
em redes sociais
No fim das contas
Sou apenas um menino sozinho.

                             Leonardo Alves

terça-feira, 10 de maio de 2011

Domingo



É tão normal
A felicidade
Nesta tarde de domingo
Ao teu lado

É tão simples
Minha solidão
Ocupada pelos teus braços
Me abraçando

Tão real
Teu corpo nu
Aceitando meu corpo
De bom grado

O  estranho é perceber
Que essa felicidade acaba

Sim,
Um dia apagarás meu nome
Da tua agenda de telefones
E tentarás apagar a lembrança
Da nossa intimidade

um dia devolverás
os livros que te emprestei
terás poucas palavras
em desconforto

Um dia
Em outra tarde de domingo
Estarás feliz
Aos braços de outra pessoa
Com a mesma entrega sincera


Eu talvez tenha alguém ao meu lado
E entre um riso e outro
Terei o mesmo pensamento
Pois a felicidade
É inconstante, frágil
Igual a uma tarde de domingo.


                       Leonardo Alves

domingo, 8 de maio de 2011

E por falar em poesia...


Para meus três ou quatro leitores, vou traçar, de forma resumida, minhas leituras de poesia, minhas influências, além de falar um pouco sobre minha criação poética. A necessidade de escrever começou um pouco tarde. Com 19 anos. Rimbaud, com essa idade, já havia se aposentado da literatura. Bom, aos 19 ainda não escrevia coisas que poderiam ser chamadas de poema (será que hoje eu escrevo?). Escrevia, de forma bem solta e assimétrica, algumas letras de músicas. Umas poucas vingaram e se tornaram canções, como “Memórias” e “Muro”. “Sombras” foi musicada pelo Tiago e o Rodrigo, dois grandes amigos. Muita coisa acabei colocando no lixo. Meu interesse pela poesia ocorreu no ano seguinte, quando foi parar em minhas mãos uma antologia de poetas brasileiros. Do Barroco ao Modernismo. Até então, na obscuridade em que eu vivia, não imaginava como alguém poderia ler um livro de poesia. Parecia algo enfadonho e inútil. Mas surgiu aquele livro... E eu não conseguia largá-lo. Sei que os primeiros poetas que me chamaram a atenção foram Álvares de Azevedo e Castro Alves. O primeiro por pura identificação. Aquela poesia juvenil, dolorida e confessional tocou direto minha sensibilidade. Castro Alves me encantou pela beleza de imagens, o léxico sofisticado e a sua grandiloqüência. Minha primeira leitura de “O navio negreiro” foi bastante impactante. Lembro que anotei ao lado das páginas todas as palavras difíceis, na tentativa de não perder nada do poema. Mas Castro Alves não me encantou somente através de sua poesia com temática abolicionista. Aqueles poemas com um toque de sensualidade também me cativaram, como “Adormecida” e “O adeus de Teresa”. Lembro que os modernistas não me causaram grande deslumbramento. Mas um, entre eles, conseguiu minha atenção: Augusto Frederico Schmitd. Não era o verso convencional, metrificado, mas também não se tratava de algo coloquial como os demais modernos se apresentavam. É claro, que depois fui entender o porquê. Tratava-se de um poeta que escrevia sob a atmosfera do romantismo (ou pós-romantismo – se é que tal nomenclatura existe), ainda que em verso livre. Até hoje trago em minha memória os versos do belo poema “Retrato do Desconhecido”. Eis um exceto do texto:
Ele tinha uns ombros estreitos, e a sua voz era tímida,
Voz de um homem perdido no mundo,
Voz de quem foi abandonado pelas esperanças,
Voz que não manda nunca,
Voz que não pergunta,
Voz que não chama,
Voz de obediência e de resposta,
Voz de queixa, nascida das amarguras íntimas,
Dos sonhos desfeitos e das pobrezas escondidas.

Há vozes que aclaram o ser,
Macias ou ásperas, vozes de paixão e de domínio,
Vozes de sonho, de maldição e de doçura.
Os ombros eram estreitos,
Ombros humildes que não conhecem as horas de fogo do
 amor inconfundível, (...)
(A. F. Schmitd)
            Meu primeiro livro de poemas, que comprei num sebo, foi uma coletânea do A. de Azevedo. Depois se seguiram Casimiro de Abreu (emprestei As Primaveras e nunca me devolveram), Cruz e Souza, Alphonsus Guimarães, até eu chegar em Fernando Pessoa. Lembro que adquiri um livro de bolso (que já não faz mais parte de minha coleção – esse doei de bom grado a uma pessoa especial), com poemas escolhidos. A seção destinada a Álvaro de Campos foi a que me fez acordar para a poesia moderna. Não sei se é regra, mas todos os poetas verdes acabam gostando mais do heterônimo Álvaro de Campos. Interessante que sempre me identifiquei com essa poesia mais confessional, pessimista. O “Engenheiro Sensacionista” tinha essas características. Seus textos raramente trazem uma nota de otimismo. No entanto, se diferenciavam dos românticos que eu tinha lido, pois investigava a problemática do ser no mundo moderno. Não eram mais lamentos de amor platônico. Eram lamentos do homem tentando fazer parte de um mundo para o qual não foi feito. Até hoje Fernando Pessoa faz parte de minhas leituras. Mas já volto minha atenção mais para os poemas do ortônimo (ele-mesmo). Depois disso, lembro que me encantei com a falsa simplicidade de Mário Quintana. Foi uma grande influência. Todos foram grandes influências, mas não consegui chegar perto de nenhum.
Esse foi o começo de minhas leituras. Nessa época eu comecei a fazer meus livrinhos em cópia reprográfica. Vendia por quantia modesta, só para arcar com as despesas. Eram poemas bem simples e juvenis, mas eu me sentia muito orgulhoso de tê-los confeccionado. Em 2001 dei a lume, por assim dizer, a Sugestões do Silêncio (guardo ainda a matriz desse plaquette, como se fosse uma relíquia. Mas não tenho coragem de reler), Poesias, em 2002 (talvez um pouquinho melhor do que o primeiro). Foi com Cantos do Ermo sem Fim (2003) e Liturgia do Caos (2004) que consegui uma razoável qualidade, mas ainda assim mantendo vários resquícios de um poeta em formação. O meu amigo Rodrigo conseguiu musicar alguns desses textos, fato que me orgulha o suficiente para não desprezar totalmente essa fase de minha escrita. Nessa época, lembro que muitos amigos me ajudavam na divulgação dos “fanzines”, como eu os chamava à época, além de me incentivarem a produzir meus textos. Marlise Machado (que recentemente me presenteou com a obra completa do Pessoa), Miguel Dias, Fábio Saraiva são esses amigos. Eles viram nascer a minha poesia. O Rodrigo Oliveira sempre era escalado para fazer um som nas vernissages de lançamento (na verdade, reuniões etílicas entre os amigos).
De 2005 até meados de 2006, ainda continuei escrevendo com o mesmo afinco com que começara. Nessa época lembro de ter escrito o primeiro esboço de “Porto” e “Vale” (dei a forma definitiva para eles, momentos antes de publicá-los no blog). Mas, depois, parei. Fiquei mais voltado à leitura. Lorca, Walt Whitman, e vários romancistas, dentre eles cito Raduan Nassar com o seu belíssimo Lavoura Arcaica (Ricardo me presenteou com a edição que tenho até hoje), livro que conseguiu me mostrar que a poesia não se identifica pela forma versificada. Muitas vezes ela usa o disfarce da prosa.
Em 2007 os ares de Rio Grande me despertaram novamente para a criação poética. Além de vários textos soltos (arquivados, esperando voltar para a oficina), que organizei sob o título provisório de Espelho Pueril, tive a idéia de escrever um texto poético de largo fôlego. Para isso revisitei a “Ode Urbana”, poema de cento e poucos versos, acrescentando vários fragmentos. Ainda hoje trabalho nesses fragmentos, esses Sketches, para conferir certa coesão. Trata-se de um texto que contempla várias vozes/ personagens, todos presos ao contexto urbano. Seus dilemas, suas dores. O sanfoneiro sem pernas, a mulher oprimida, o homem que sente a dor de ter que trabalhar num serviço que odeia, os meninos malabaristas no sinal de trânsito. Componho esse poema sem a mínima pressa. Interessante que, refletindo sobre esse projeto de poema longo, descobri que foi a influência de Mário Faustino o principal impulso para esta empreitada lírica. Eu estava começando a ler a obra do poeta piauiense, para dar início a um trabalho de pesquisa e interpretação acerca do livro O Homem e Sua Hora. Acredito que foram os fragmentos que Faustino deixou de sua Obra em Progresso, que me incentivaram a tentar compor um poema longo, baseado em takes, como ele se referia a sua técnica, baseada no cinema. Faustino não viveu o suficiente para dar ao publico a sua versão dessa obra, que estava em andamento. Meu poema não tem a pretensão (e nem a força) dos Fragmentos de Faustino. Escrevo numa linguagem fluida, por vezes coloquial. Os versos do autor de O Homem e Sua Hora estão mais para a poesia imantada de imagens e sentido da Invenção de Orfeu, de Jorge de Lima. Eu jamais teria ímpeto para uma linguagem tão carregada de símbolos e referências.  Voltando a minha poesia em progresso, nesse blog postei alguns excetos preteridos, por não se encaixarem muito bem no aspecto formal do meu projeto: “Carta de Amor”, que fala sobre um suicida desiludido com o mundo desolado em que vive e “Salmo desesperado”, sobre um jovem assassino que fala com deus e renega o auxílio materno. Além do pretensioso poema longo, continuo anotando, reescrevendo, criando um pouco de versos para este blog. As minhas leituras atuais incluem Ferreira Gullar (influência decisiva para alguns textos), Leminski, T. S. Eliot, Rimbaud (uma de minhas obsessões) e Pound (deste, estou tentando escalar o monumental, Os Cantos).
Às vezes me pergunto: por que segui pelo caminho da poesia, meu Deus? Caminho tão árduo, tão desacreditado. Mas como disse Octavio Paz: “a poesia sobreviveu, ocultando-se nas catacumbas”. Não se trata de um artigo comercial. Mas acredito que, de certa forma isto não seja tão ruim assim.  Onde se introduz poder do dinheiro, as coisas perecem. Esses tempos fui fazer uma visita às livrarias de Pelotas. O que temos é auto-ajuda, ocultismo e best-sellers. Muitos best-sellers. Fico feliz que o capitalismo não tenha maculado a poesia. Quem quiser ganhar dinheiro com poemas, esqueça. Quem quer ganhar dinheiro escrevendo boa literatura, esqueça. São outros valores que estão em jogo na arte literária, na poesia. Reconhecimento daquelas poucos e valiosos leitores, contribuição para as letras, perenidade, são alguns desses valores. O caminho é árduo, mas eu não desisto...

                                               Leonardo Alves

sexta-feira, 6 de maio de 2011

Mãe (Ou Salmo Desesperado)



Mãe, não sei como dizer...
Mais uma vez fiz tudo errado
O sangue inocente me sufoca
Os olhos parados,
Mortos me atormentam

Talvez eu quisesse o que não podias me ofertar
Embora à mesa estivesse sempre o pão 
Ele me sufocava
prendia-se no esôfago
Eu queria uma mesa de cores mágicas
Eu queria o pão metafísico que não se esfarelasse n’alma
E a água que não tivesse
O sal de toda a derrota

Mas não peço perdão, contudo
Fiz o que pude para aceitar
O ranger agoniado das cadeiras
A ferrugem que dava gosto ao café
O sanitário regurgitando monstros
Quando a casa dormia

O pão que tinha bolor
Tu bem sabias tirar com a faca
Mas havia fungo no meu coração
No meu coração doente
Fazes bem voltar para casa
Não há mais o que ser dito
O sangue inocente me sufoca
Os olhos parados,
Mortos me atormentam

Tua dor não tece a liberdade
Não adianta falaciosas imprecações
Gritos e lágrimas
Não adianta dizer “meu Deus”
Vocês são incomunicáveis
Tu és surda a qualquer murmúrio divino

No entanto, eu
O louco
O esconjurado
O assassino
Consigo falar com ele
Queres saber o que ele diz ?
Quer que tu vá embora

Volta para casa,
Corre a dizer pro pai
Que o filho é um monstro
Que blasfema

(Ah nossa bela casa o pai bêbado
tropeçando em garrafas vazias
procurando os óculos achando estranha a nossa ausência
Dando-se conta que a noite chegou)

Vai lá, fala pra ele...

Deixa-me aos cuidados de deus
Que me mostrará, eternamente
O sangue inocente
O sangue jovem
Os olhos parados,
Mortos
Que me atormentarão
Até o fim...

                                 Leonardo Alves

quinta-feira, 5 de maio de 2011

Ode Sintética



 Para Tiago Souza


A vida escassa de maior sentido;

Faz-se necessário fervor contumaz:
Virar a mesa dos vendilhões
Entornar vinho no pensamento tímido

Elevar oitava acima os cânticos
De amor e liberdade
Lavar a alma com o próprio sangue
Rasgar a pele na luta audaz

Desferir projéteis em santos de barro
Cravar estrelas no corpo
Saudar cada dia com a disposição heróica
E enfrentar a adversidade
Sem deixar um lamento indeciso no ar

Porque o sentido da vida
Se alcança
Na árdua contenda de cada dia.

                                   Leonardo Alves

quarta-feira, 4 de maio de 2011

Carta de amor


Igual a tudo que sempre consideraste
Excentricidade de minha parte
Serás a primeira a saber da última:
Eu decidi morrer.

Talvez seja uma forma de protesto.
(tu nunca entendeste
meus protestos...)
De qualquer forma vou te contar:

Várias vezes vi gente catando lixo para comer
Várias vezes vi homens em empregos vis
Amaciando a vida com aguardente
Vi mulheres sujas, sem lar, à calçada
Abraçadas a sua prole.

No forte do inverno desta cidade indiferente
Vi gente usando papelão como se fosse cobertor
No olho do cu da rua
Assisti, com tristeza no olhar,
O trabalho infantil no centro da cidade
Meninas se prostituindo
Para por um pouco de alucinógeno

Vi todo esse tipo de humilhação
Que já deves conhecer
Miríades de formas em que o ser humano
Acaba rebaixado.
Mas fica tranquila, não vou gastar tua beleza
Com mais cenas desse tipo

Ah, tu que te emociona com novelas
Com filmes de amor adolescente
Mas não presta a mínima atenção
Para o mundo desolado que te rodeia!

Pois bem, eu fiquei revoltado
Com esse apego à vida
Essa maldita vontade geral de continuar vivendo
De tanta gente que, sem perceber, já morreu
E me dei conta que também estou morto
Eu também sou mendigo
Catando comiseração à beira do caos
E percebi que a vida vale tão pouco
Que se não me matar amanhã
Poderei ser humilhado pelo câncer
(Eu que já nasci humilhado com a grande
"humildade" de ser nada)
Por qualquer outra doença que transforma o ser em bosta
Eu que já sou mendigo.
(deves entender quando uso esta expressão)
Sim querida, vou morrer.
Não sei quando irás ler esta carta patética
Mas eu, até lá, estarei perfeitamente morto
Sem mágoa sem nada
Simplesmente morto.

Para usar uma expressão da tua vida automática
(que já não será mais minha)
Delicadamente
Decididamente
aperto a tecla STOP.*


                        Leonardo Alves

*Este poema talvez faça parte da "obra em progresso" que venho trabalhando desde 2007. Trata-se de um poema fragmentado e polifônico, cujo tema gira em torno das mazelas urbanas. 

The Red Rose

Your rose has the scent
That sets my mind on fire
When it blossoms in the dew
Of the quiet night

She startles and trembles
With the touch of my lips

Your little rose
That harbours volcanoes
Is the wine in my blood
The intoxication of my senses

It has the flavour of ready apples
The endless sea's water salt

Small red rose
Simple flower
Turns your scent into your secret
Your skin color into your sin
Your inner fire into your domain.*

                           Leonardo Alves


*Revisão: Mário Siri / Rodrigo Oliveira

segunda-feira, 2 de maio de 2011

Pressa de amar



teu amor tem pressa 
é preciso sorvê-lo antes do amanhecer
antes que esmoreça
no precipitar do aço luminoso

teu amor tem urgência
grita por meu corpo
dá-se veloz
num vulto branco e gasto
de vãos lençóis

teu amor é a fome crua
que te faz
no fastio
segregar
o indigente coração macerado.


               Leonardo Alves

Apontamento




                                      "Vai ser bom ler todos os dias o teu blog antes de trabalhar. Sempre haverá uma mensagem de pessimismo, descrença e frustração para começar meu dia."  Rodrigo Oliveira



Ainda cabe um pouco de tédio em meu iPod
Olhar míope de meus 12 megapixels ainda consegue ver
Que não perdi a felicidade analógica de estar triste

Embora exista 1 terabyte em meu notebook
Todos discos dos anos 70 em meu pendrive

Ainda penso no cais e no mar
No mar salgado
Aberto às grandes e verdadeiras descobertas
Que ávidos internautas jamais sonharam

Ainda penso no mar sem fim
Que haverá de me dar - um dia
A glória de uma morte obscura.

                           Leonardo Alves

domingo, 1 de maio de 2011

Vale




vendo vale
vendo a vida
que passa
perguntando
se vale a pena

passagem
paisagem
a venda de vale
não vale o almoço

não peço favor
sou trabalhador
que vende vale

vendo vale
vendo a vida
vendo tudo
passar

vale, senhor?
vale, senhora?
vale, meu jovem?
de que vale a vida?

                      Leonardo Alves