quinta-feira, 2 de junho de 2011

Despertar de Mim



Dispensem de forma educada
As carpideiras
O cantor elegíaco
Suspendam o café, o chá
E as conversas constrangidas

Apaguem os falsos círios
Recolham as lágrimas
Despeçam amigavelmente
Os amigos

Não haverá mais velório
Pois decidi renascer.

                   Leonardo Alves

Filosofia



Hegel
Kant
Spinoza
Me ensinaram coisas
Que até hoje não lembro
Mas de ti
Como posso esquecer?
Como posso esquecer
O que contigo desaprendi.

               Leonardo Alves

quarta-feira, 1 de junho de 2011

Velho Tema

No princípio era o verbo
Na verdade sempre o verbo
E o tempo
O tempo consumido em verbos
Perder
Ganhar
Saber
Amar
Ser
Sonhar
No fim das contas
Nossa existência
Incrustada no tempo 
No modo verbal
E nunca sabemos
Se conjugamos corretamente
O anseio de viver.

                    Leonardo Alves

segunda-feira, 30 de maio de 2011

A arte de traduzir

Este post é dedicado a um dos mais profícuos tradutores brasileiros aparecidos nos últimos anos. Sua vastíssima cultura o possibilitou verter para o português uma série de obras das mais diferentes línguas. Este jovem poliglota tem em sua bagagem traduções de livros escritos originalmente em Francês, Inglês, Latim e até mesmo Russo!
Demorou bastante até aparecer um espírito tão culto, do quilate de um Ezra Pound. Para nosso orgulho, um brasileiro. Nesse momento o leitor deve estar curioso para saber o nome de tal erudito. Seu nome é Pietro Nassetti e entre as tantas obras que traduziu, estão: As Flores do Mal (Baudelaire), O Jogador (Dostoievski), Manifesto do Partido Comunista (Marx & Engels), O Retrato de Dorian Gray (Wilde), entre tantas outras.
Tenho o orgulho de dizer que comprei todos os livros acima citados, ao longo de uns dez anos. Todos eles na tradução de Nassetti. Como não tinha (e continuo não tendo) muito dinheiro, e também não tinha interesse em vender um rim para adquirir as edições da Cosac & Naify ou Cultrix, por exemplo, acabei caindo na editora Martin Claret. Sempre considerei um trabalho louvável, o de lançar, a preços populares, obras fundamentais para as mais diversas áreas das ciências humanas. Editora, essa, que revelou o talento de Pietro Nassetti e Alex Marins (outro poliglota sem precedentes na história de nossas letras) como tradutores.
Bom, vou parar com a brincadeira. Não tem a mínima graça. A verdade é que o Pietro Nassetti é um fake. Não traduziu porcaria nenhuma! A falcatrua é a seguinte: pegar uma tradução já consagrada, mas que ainda possui direitos autorais, e efetuar algumas alterações, com a finalidade de maquiar o trabalho. No meio dessa brincadeira, substituem-se palavras ou expressões por sinônimos, cortam-se parágrafos, muda-se o sentido de alguns trechos. O produto final, que cai nas mãos do leitor, é uma colcha de retalhos, um artigo de quinta categoria e, além disso, um produto de plágio. Quem se arrisca a pôr como referência em um trabalho acadêmico obras dessa estirpe?
Eu sempre tive o pé atrás com as traduções da Martin Claret, mas acreditava que os trechos mais “obscuros” ou truncados, se deviam à inexperiência de alguns tradutores. E nunca parei para pensar/questionar a erudição de “tradutores”, como o citado, Pietro Nasseti que, a despeito de não possuir em seu nome traduções primorosas, atacava em quase todas as línguas.
Aconteceu que, ultimamente, eu estava procurando na internet algum artigo que me indicasse uma boa tradução para a Divina Comédia, já que a minha, da Nova Cultural, é bem duvidosa por estar com alguns trechos, indevidamente, cortados. Então encontrei um blog, Não Gosto de Plágio, muito esclarecedor no que diz respeito às traduções “impuras” que rolam por aí. Vale a pena dar uma olhada. Trabalho sério, profundo e altamente esclarecedor. Infelizmente não é só na editora do Pietro Nassetti que se evidenciam tais crimes de plágio. Algumas coleções, como a da Nova Cultural, apresentam esse problema (sim, minha edição da Divina Comédia não vale nada!).
É claro, nem tudo está perdido. Alguns livros da Martin Claret trazem boas traduções. Ou pelo menos originais. É o caso da Eneida, de Virgílio, apresentada na tradução clássica de Odorico Mendes e Fausto, de Goethe, na bela versão para o português de Agostinho D’Ornelas. Nestes casos citados não se fez necessário mascarar os textos, pois os tradutores já são falecidos a mais de 70 anos. Seus trabalhos são de domínio público.
Desejo que os meus dois ou três leitores acessem o blog a que me referi: http://naogostodeplagio.blogspot.com Se possível divulguem. Muita gente boa está colocando dinheiro fora com estas edições. Por falar nisso, eu tenho uma bela coleção, A obra-prima de cada autor para vender. Alguém se interessa?

                                           
                                                         Leonardo Alves

quinta-feira, 26 de maio de 2011

Crime

Sei que o maior crime neste país
é celebrar a tristeza
Num poema

Há um manual de convenções para sorrisos
Um livro de respostas evasivas
Para questões de ordem existencial

Está previsto na lei
Que abole todo e qualquer tipo de tristeza
A carnavalização

O indivíduo que for pego
triste
lucubrando
Terá que passar um ano
Pulando num carnaval
Exclusivo para nefelibatas
Melancólicos
Que ferem a alegria do país

E não adianta chamar por Deus
Deus, que é brasileiro
Está sempre ocupado
Numa roda de samba.

                       Leonardo Alves

terça-feira, 24 de maio de 2011

Apartamento 06

A umidade desenhou um mapa-mundi nas paredes da sala
As lesmas escrevem meu nome na porta
Enquanto a torneira
Ejacula sua água marrom do Aqueronte

A aranha tece gentilmente
Uma cortina para minha fenestra
E depois das 22
A cozinha é de uso exclusivo das baratas

A traças se alimentam dos meus livros
E do meu diploma inútil

O telefone no cio
Grita impaciente por mim
Eu sei quem é
E não faço questão de atender
Por mim pode morrer
O telefone
Gritando.

                  Leonardo Alves

sábado, 21 de maio de 2011

Das incertezas, (im)possibilidades de uma poética

 
O Futurismo de Marinetti
Tem mais de um século
O manifesto de Oswald
Ainda é a tradição do
Eternamente subversivo

Evangelho
Envelhecido

O poema submisso
Já foi pintura
Lista de supermercado
Palavra cruzada
Piada
Pílula
Mictório

O romantismo nunca foi rima ou resposta
Para  avant-garde
Mas até quando
A mesma revolução

Le Figaro, 1909
Filipo Tommaso
Inaugura a modernidade
E há meio século
Que se anuncia a aurora pós-moderna

Certeza?
Nenhuma.
O melhor é reler a Ilíada.

                       Leonardo Alves

O Gramático

Chega todos os dias às 8:00
Taciturno
À mesa prosaica do trabalho

De um saco de supermercado
Retira os pedaços de uma velha gramática
Mais velha do que farmácia com PH

Com a paciência prodigiosa de um Jó
Tenta montar
A Língua Portuguesa.

                          Leonardo Alves

Poema de Circunstância

Sobre o jovem australiano morto ao tentar fazer uma pose de “planking”.



Narciso queria sua façanha no facebook
Ver-se com dois mil olhos virtuais

Deitado no parapeito
Para a notoriedade efêmera
Enferma

Sétimo andar
Sua última proeza
Narciso, Ícaro
Ou anjo ferido?

À flor do cimento
Uma flor vermelha.

               Leonardo Alves

sexta-feira, 20 de maio de 2011

Um dia sem Post

Hoje é um dia sem post. Na verdade, um dia em que excluo um post. Reli o texto "Farewell" e achei uma merda. Peço desculpas. Acho que é o cansaço. Espero, amanhã, trazer  novidades, inclusive alguns poemas circunstanciais, que tenho desenvolvido mentalmente. Sei lá, qualquer coisa parecida com epigramas. 

Agradeço aos leitores as visitas.  

quarta-feira, 18 de maio de 2011

Os Sete Anões


Depois de um estudo antropológico exaustivo, eu, juntamente com meu grupo de colaboradores, conseguimos classificar 7 tipos de personalidades mais comuns em repartições públicas. Qualquer coincidência com a realidade nada mais é do que a ratificação da seriedade de tal pesquisa. O que temos aqui não são pessoas retratadas individualmente, mas tipos; ou seja: cada uma das personalidades representa um grupo de funcionários, unidos pelas mesmas características.  Coincidentemente cada um desses “tipos” traz certa semelhança com os Sete Anões, personagens do famoso desenho de Walt Disney. Isso ajudou bastante o tom didático do presente estudo. 

1)    Zangado: um dos tipos mais marcantes. Ele se caracteriza por estar sempre de mal com a vida. Desde a hora de marcar entrada no ponto até a sua saída, são constantes suas lamúrias. Trabalha mais que os outros funcionários, nunca foi valorizado nos seus anos de serviço prestado, etc. Em muitos casos, esse tipo de funcionário tem mania de perseguição. Acredita piamente que todos estão contra ele. Mas na verdade é ele que está contra todos.
2)    Feliz: ao contrário do zangado, este tipo está sempre alegre, de bem com a vida. Ele pode ser xingado, seu salário cortado pela metade, bater com o carro: nada abala o funcionário Feliz. Alguns antropólogos o chamam também de playmobil, pois há um sorriso constantemente estampado no seu rosto. É comum nesse tipo de servidor o gosto pelo futebol e outras formas de escapismo. É alheio a qualquer especulação de ordem existencial.
3)    Soneca: como o próprio nome já diz, esta espécie de funcionário não pensa duas vezes antes de tirar uma soneca. A sua grande maioria é constituida por bohemios que chegam ao trabalho muito cansados, pois praticaram várias extravagâncias etílicas na noite anterior. Com o acesso a tecnologia que temos, é possível encontrar algures, várias fotos digitais com tais servidores em momento de ócio (im)produtivo. É comum sentirem certo orgulho de tais documentos comprobatórios.
4)    Atchim: esse tipo é assim batizado por estar constantemente com alguma espécie de resfriado. Em geral, são pessoas que estão sempre correndo atrás de dinheiro e serviços extras. Se alimentam mal, pois estão sempre na correria. Daí a origem de seus resfriados constantes.
5)    Mestre: tipo obrigatório em qualquer repartição pública que se preze. Geralmente esse grupo é constituido por indivíduos com vários anos de casa. Têm sempre uma resposta para os problemas recorrentes no setor. Mas suas habilidades não se restringem ao serviço. Os servidores do tipo Mestre são ótimos conselheiros sentimentais, indicam aos colegas tratamentos fitoterápicos além de estarem sempre dando dicas pertinentes sobre culinária. Apesar de serem boa praça, são, às vezes, um pouco vaidosos, em decorrencia do profundo saber que transmitem.
6)    Dunga: é o tipo que tem a alma infantil. Está sempre dizendo bobagens, a maioria sem graça. Tem por hábito os joguinhos de computador (no horário do expediente) e está sempre comprando um brinquedo eletrônico novo. Coleciona celulares com funções extra (MP5, MP10...) e adora programas radiofônicos voltados para adolescentes. Normalmente, os indivíduos do tipo Dunga são alvos fáceis de gracejos e piadas de mau gosto.  Apesar disso, estão sempre de bom humor.
7)    Dengoso: esse tipo, ao primeiro relance não faz jus a esta denominação: geralmente são fortes e imponentes, usam camisa pólo de marca (preferencialmente bem apertada) e andam sempre com a coluna ereta. Todavia, quando falam, se descobre por que seu tipo é dengoso: voz suave, fininha, quase um sussurro. Geralmente parecem que estão cochichando, dada a amplitude discreta de sua fala. Acredita-se que esta característica esteja ligada ao fato de os funcionários deste grupo serem um tanto tímidos.


                                     Leonardo Alves

Eu faço versos como quem (quase) morre



Eu estou fazendo minha parte para tornar o mundo melhor. Todos os dias vou de bicicleta para o serviço, enfrentando um trajeto de uns cinco quilômetros. Evito o lançamento de gás carbônico na atmosfera, ajudando na diminuição do efeito estufa ou, pelo menos, não sendo mais um a piorar a situação do superaquecimento global. Além disso, acabo fazendo um exercício para manter a saúde em dia. Eu sou um cidadão consciente.

Mentira, eu só utilizo meu veículo de propulsão humana (ou animal, dependendo do ponto de vista) por questões econômicas. Se eu tivesse um carro, acredito que eu acabaria indo diariamente motorizado para o trampo. Conforto. Rapidez. Mas, para o bem da mãe natureza, esse pretenso escrevinhador não possui remuneração pecuniária para comprar um carro. Ah, se eu tivesse grana! Compraria um Scort XR3 conversível e desfilaria pelas ruas no possante com meu braço esquerdo aristocraticamente para fora do carro e o meu pulso ornado com um relógio-calculadora, daqueles que faziam muito sucesso nos anos 80. Aí Pelotas ficaria pequena para mim! Mas me desviei absurdamente do que ia falar.
Eu quase me acidentei hoje, quando voltava do trabalho. Quase acabei como a Macabéa, atingido por um Mercedez Benz. Minto novamente. Era um Ka. Mas não foi culpa do trânsito caótico. A culpa foi minha e acabei sendo severamente punido com um jacto de palavrões - o motorista ficou irritadíssimo por eu quase ter acabado morto debaixo do seu automóvel.
Acontece que eu estava escrevendo, enquanto andava de bicicleta. Não pense o leitor que eu consigo tal malabarismo de usar papel e caneta, concomitante ao ato de pedalar. Não. Na verdade eu estava escrevendo mentalmente. Descobri que a melhor forma de escrever não é ficar olhando para o papel em branco ou para a página vazia do editor de textos. É escrever mentalmente enquanto sigo meu caminho rotineiro, sentindo o vento e o sol no rosto. Na verdade o que faço quando chego em casa é trasladar tudo que elaborei. Depois do susto disse para mim mesmo: “tenho que parar com essa história de ficar escrevendo com o pensamento!” Até então eu não tinha dado por esse fato, de que muitos de meus poemas brotavam no prosaico trajeto que faço todos os dias em cima da  “magrela”. De que eu escrevo andando de bicicleta.
Certa vez eu li que Ernest Hemingway, antes de escrever, ficava apontando, em média, uns trinta lápis, para ativar o cérebro e as idéias. Sempre encarei isso como uma grande excentricidade do autor de O Sol Também se Levanta. Mas, refletindo melhor sobre o assunto, cheguei à conclusão de que cada escritor vai ter sua forma de ativar o motor da inspiração. Para alguns pode ser fazendo a barba; para outros, acendendo um cigarro atrás do outro. Só acho que ficaria complicado ter lampejos literários no momento do sexo:
- O que houve, amor?  Desanimou?   
- É que finalmente consegui pensar na chave-de-ouro para um soneto que eu estava escrevendo!
Mas nunca havia imaginado que o ato de escrever pudesse colocar a vida do indivíduo em risco. Hoje quase fui pro saco!  


                                  Leonardo Alves