sábado, 11 de janeiro de 2014

Rascunhos do Caderno B (mais uma folha maldita)


1. Faz um calor proveniente das fornalhas do inferno. Mas sinto frio. Muito frio. E medo. Não o medo de estar enfermo, com febre. Não o medo pálido da morte. Somente o medo dessa ausência de mim, ente sem biografia cada vez mais dissipado. Sem utilidade prática.
2. Recitei teus poemas em voz alta como se estivesse rezando. Na esperança de ressuscitar a borboleta morta no peitoril da janela. Perdi mais que o sono. Não sinto gosto de nada. Nada.
3. Esculpi num ímpeto de Pigmalião toda tua essência. Ficaste invisivelmente linda. Mas teu corpo... Não consigo, não posso. Teu corpo se evapora da minha mente antes que eu pense em esculpi-lo. Teu corpo é longes e sem fim. E sem mim.
4. Amo dormir, pois o sono é uma amostra sutil da morte; por isso a morte não me causa espanto. Por isso adormecer tanto me apraz. O descansar de toda minha lástima - que é anedota para o mundo prático & eficiente.  Entretanto perdi o sono. Quando se perde o sono, é possível ver todas as fendas do absurdo de persistir. O livro de sonhos entreaberto, não lido, aborrecido nas cobertas reviradas. A vida entreaberta, não lida revirada, mal vivida.
5. Confesso, sem pejos, que desisti das Elegias de Duíno. Escrevo minhas próprias elegias. Leio parcialmente Nietzsche e Sartre, com o ânimo desbundado. Acrescento um pouco de ulcerações. E a oficina do poeta é um improviso de madeiras velhas e infiltrações no teto, nas paredes e na ambição de beleza.
6. Enchi de explosivos minha sorte; sabotei minha felicidade. Herdei o olhar medroso do meu pai. Meu plano sempre foi ser uma fortaleza. Mas vou me desconstruindo. Tenho areia no rosto dos chutes que levei sorrindo/envergonhado. Estou magro, pálido, com fundilhos caídos no infinito.
7. Minha maldita metralhadora às vezes dispara no alvo errado. São palavras impossíveis de apagar. O arrependimento rasga meu peito. O espelho se envergonha de mim. Qualquer escusa vale menos que uma moeda de um centavo. Não peço desculpas. Perco a batalha. E cada vez mais, perco o amor.

8. O poeta é bem mais que um fingidor! É uma fraude!Um ser cheio de lacunas que caga e mija no vazio. O poeta é um carregador de verduras; estivador de mãos frágeis. Sem aptidões.

5 comentários:

Vanessa Oliveira disse...

A primeira coisa que li no teu blog foi "Rascunhos do Caderno B". Então, pensei: aí está alguém [ou algum eu - lírico] que pensa como eu. Identificação imediata. Nem preciso dizer que gostei do post. Parece a Vanessa falando haha. Muito bom, Leo!

Leonardo disse...

Tu és uma leitora especial, que consegue sentir meus textos. Sou grato de ter te conhecido e conhecido teu trabalho que é ótimo!. Como sempre, obrigado pelo incentivo, dear! Bjus

Michele Falcão Fonseca disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Michele Falcão Fonseca disse...

Flui bastante. Linda sonoridade. Detalhes interessantes. Deveria ser óbvia e redundante a afirmativa "Subsistir é indigno", mas vivemos a lentidão da "Política da Digna Subsistência".

Leonardo disse...

Oi Michele! Sem palavras por tua contribuição para que este poeta (ou quase) consiga acreditar na própria arte. A digna Subsistência é um drama velado, mas que dói no desamparo da insônia. Valeu, mesmo.