sábado, 25 de junho de 2011

Os Cantadores da Noite

Os cantadores da noite
Possuem olhos pequenos
Onde, lenta, a lua se desfaz.

Cantadores acordando
Casas, flores e fenestras;
Na celebração da vida
Ungidos com sombra e luz.

Desconhecida alegria
Destes pobres cantadores
Que seguem rindo com suas
Fanopéias, Melodias.

No espaço brusco da vida
Vão batucando o carnaval
Cansado do coração.

Rosto turvo, vincado
de cada um dos cantadores;
Córrego por onde escorre
O fero esforço da faina.

A máscara no entanto
Cai como um segundo rosto;
E eles, trapos estridentes,
São o desespero da noite,

Os cantadores da noite.

                Leonardo Alves

sexta-feira, 24 de junho de 2011

Metapoética

Escrevo sob a luz elétrica
Meus versos desajeitados
Enquanto Luís de Camões
Observa meu trabalho

Fico constrangido
Com a presença do vate luso
E deito ao chão
Minha inutilidade poética

Antes do meu nascimento
Minha dor já estava por aí
Melhor escrita em versos 
De sublimada arte e engenho

Resta, nesta hora, me contentar
com o epíteto de poetastro
Ou desistir de tudo

E não há chance de Virgílio
Me acompanhar aos infernos.

sábado, 18 de junho de 2011

Cogito Ergo Sum


  video
Rodrigo Oliveira
(Música de de Leonardo Alves & Rodrigo Oliveira)
Eu estava ouvindo bastante a discografia solo de John Lennon, à época. Lembro que “Steel and Glass” foi uma das canções que ouvi repetidas vezes. A partir dessa inspiração, rabisquei alguma coisa num papel (sem ligação com a letra da música do Lennon, mas com o estado de espírito que ela me despertava) e comecei a inventar uma canção em tom Am. Eu queria um refrão com uma nota sustentada por longo tempo, como na música do John; entretanto, como eu tinha escrito a letra primeiro,  sem muito refletir nas questões fonéticas, não vi possibilidade. Criei um encadeamento básico em Am F7+ e E7, com algumas variantes e uma ponte em Bb, que agora, sinceramente, não lembro os acordes. Era o que eu tinha. Melodia, nenhuma. Então resolvi ligar para o Rodrigo
 -  Aí Rod, me ajuda a terminar uma música!
 -  Tô chegando aí...
Passei a coisa toda para o Rodrigo, mostrei minha ideia, expliquei sobre o que a letra versava. Ficamos lá tomando uns tragos, jogando conversa fora, mas não conseguimos chegar a grandes conclusões. Dois dias depois, recebo por e-mail uma demo da música. Praticamente pronta. E é esta canção que apresento nesse post.
Infelizmente nem eu, nem o Rodrigo temos muito tempo, hoje, para desenvolver nossa parceria musical. Mas espero ter oportunidade de compor mais um punhado de canções com esse brother. Claro, terminar esta canção, que intitulei provisoriamente com o nome pedante de “Cogito Ergo Sum”.
Na verdade, o que hoje apresento é uma demo, falta ainda inserir a última estrofe e aparar algumas arestas na letra. Eu coloquei aqui o texto original. Algumas alterações foram feitas para adaptar à melodia. Alterações, estas, que não estão presentes na letra que segue:

Eu sou um ser pensante
Na calçada da cidade
Eu tenho uma identidade
E minha própria verdade

Ou será que sou, tão somente
Mais uma face Sem fisionomia
Um rosto esmaecido
Na cidade adormecida?

Quem dera saber
Quem me dera acreditar
Que ainda consigo sentir
Que  ainda posso pensar

À beira do rio não me vejo
Desisto de sentir o coração
Eu sou apenas meu cartão
Meu carro, tudo que desejo

À beira do caos eu me vejo
No semblante sem cor
De cada um que passa
Como um silenciar de asas
 
Eu sou um ser pensante
Na calçada da cidade
Eu tenho uma identidade
E minha  própria verdade

Ou será que sou, tão somente
A fachada conservada
Que guarda a pós-moderna
Realidade de ser nada?

quarta-feira, 15 de junho de 2011

Estudo para duas Odes

Talvez seja pior para outros existires que matares-te...
Talvez peses mais durando, que deixando de durar...

Fernando Pessoa – Álvaro de Campos

I

As cartas de suicida estão fora de moda
Suicídio está fora de moda
Foi uma febre romântica...

Qual o sentido implícito de tirar a própria vida?

Gosta de Mário Sá Carneiro,
Hemingway,
Sylvia Plath
Você precisa ser tão idiota como eles?

Suicídio é um ato gratuito
Só faz sentido
Para quem deixa de existir...

Ah, você queria dizer algumas verdades
na sua carta de suicida?
Na verdade pensa em escrever várias missivas
E endereçá-las a toda a corja de canalhas
Que lhe tira o sono a noite?
Chega a escrevê-las mentalmente
E sente até certa volúpia neste ato idealizado...
Mas será preciso morrer para fazer isso?
Já que você tem coragem o suficiente para pensar em tirar a própria vida
Pegue um pouco menos de coragem do seu íntimo
Coragem, só o suficiente para regurgitar o que lhe fere o coração
Vamos lá, eu lhe empresto o telefone
Ligue para A
Diga que é um pretensioso filho da puta
Ligue para B
Chame-o de mascarado sem-vergonha
corno, trapaceiro
Se não tiver o telefone de C
Mande e-mail
Procure-o em rede social

Peça divórcio...
Atire o monitor e o teclado por cima do seu colega vadio
Talvez você até consiga ser encostado por loucura
Se for algum morto que lhe tira o sono
Vá até o túmulo e mije na lápide
Mas não me venha com essa merda de se matar...

II

Ah, quer mostrar para o mundo que você é importante
E só depois de morto é que todo mundo compreenderá?
Tredo engano, meu querido
Houve um tempo em que as pessoas eram importantes
Hoje descobriu-se que os cachorros são ótimos amigos
E que os gatos só dormem e não argumentam
A verdade é que a morte do gato da família causará mais abalo
Do que a sua própria morte.

Sua morte trará mais luz a todos
E você não estará vivo para ver abrirem uma clareira
Naquele lugar onde havia a sua mesa e os seus objetos
Sobrará mais espaço na casa
Sim, porque suas quinquilharias, seus livros, discos
Todos estes objetos que para você tinha um valor especial
com sua morte, só servirão para ocupar espaço...
Tudo isso, vão mandar embora
Vender a preço de banana para as lojas especializadas
Na verdade será a grande alegria para os comerciantes de artigos usados
Seu guarda-roupas também
Tudo doado para um primo pobre ou conhecido desempregado
Aqueles sapatos que você não tinha acabado de pagar
Também vão trilhar o chão em outros pés
Quiçá, indignos

Não, você não é tão importante assim
Com sua ausência, as pessoas ficarão mais aliviadas
Sem o seu jazz-fusion, paixão de todos os dias
Não haverá cabelos seus na pia
para sua esposa reclamar

Mas a verdadeira alegria, seus filhos
Daí a pouco tempo terão outra figura paterna
Quiça um bêbado, ou um viciado em futebol
Que passará para eles os valores verdadeiros da vida:
Não ficar na segunda divisão
E gritar GOL – da forma mais viril possível
E, antagonicamente,
Afetada

Há formas de protesto mais sutis e que fazem maior efeito
Você engoliu muita bílis negra, amarela
E agora está nauseado com tudo?
Não precisa de uma arma
Use apenas palavras
Defenda-se com as palavras
Crie a própria vida com palavras
Castelos de metáforas
Exércitos de onomatopeias
Mundos de oximoros

E a morte,
Não precisa procurá-la
Ela já nasceu com você.

domingo, 12 de junho de 2011

O fantasma de um Sorriso – um post musical


Imagine ter uma banda no fim dos anos 60. Você toca contrabaixo e canta. De certa forma , é a figura central do grupo. Trabalho duro com os colegas: compondo, criando arranjos, idealizando um som influenciado por Cream, Hendrix e Beach Boys. Idealizando o sucesso, o reconhecimento. Após muito ensaio e algumas incursões em estúdio para gravação de demos, foi possível descolar o lançamento de um compacto pelo selo Mercury. Mas as coisas parecem não evoluir. Shows inexpressivos, recepção morna do single. Nesse meio tempo, você recebe um convite para montar uma banda com um indivíduo mais ou menos conhecido, que já havia tocado com os Bee Gees. E acontece o inevitável: abandona seus dois amigos do tempo de faculdade e corre atrás do sucesso. Os remanescentes da sua banda encontram, então, um cara dentuço, que toca piano, canta e tem sérias pretensões no rock. Um tal de Farouk Bulsara, que já havia visto o grupo em shows e, possivelmente, estava de olho no posto de front man da sua banda.


E você é o Tim Stafell, ex-baixista e vocalista do grupo Smile, banda que contava com Brian May nas guitarras e Roger Taylor na bateria e que, depois da entrada do novo vocalista e pianista, adota o nome de Queen. Farouk se tornou Freddie Mercury, um dos vocalistas e compositores mais influentes dos anos 70. Para completar o time, foi admitido na banda o baixista John Deacon. O que passou pela sua cabeça, enquanto seu nome caiu no ostracismo, enquanto a estrela da rainha começava a brilhar? Talvez a pergunta que você se fez durante muito tempo: “E se eu não tivesse saído da banda, o que teria acontecido?” Mas depois acabou chegando a conclusão: “Infelizmente não sou Freddie Mercury”. Alguns anos depois, este último entoava numa canção-hino: “No time for losers/ 'Cause we are the champions/ of the world”. Faixa do álbum News of the World, da banda que, na Inglaterra, já vendeu mais do que os Beatles.

O que sobrou do grupo Smile foi lançado na década de 80 em Gettin' Smile, EP com as músicas do compacto lançado em 69, Earth e Step on Me, mais algumas demos, entre elas, Doin all Right, que o Queen gravaria no primeiro disco. Dessa forma foi possível conhecer o trabalho do trio Staffell, May e Taylor. Na verdade, podemos observar algumas características que viriam a se aprofundar nos discos da rainha: o enfoque nas melodias, backin' vocals, e o peso contrastando com momentos mais calmos. Isto estava esboçado naquela meia dúzia de canções.

Em 2003, mais de 30 anos depois, Tim Stafell voltou ao cenário musical com um álbum intitulado Amigo, contando com a participação de seu ex-colega de banda, Brian May. Não se trata de nenhuma obra-prima, mas vale a pena conhecer o som som do cara que foi substituído por Freddie Mercury.

                                                                                                                              



     Além das 6 músicas, esse álbum vem com vários bônus, incluindo múscas do 1984, banda anterior ao Smile.
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quinta-feira, 9 de junho de 2011

Poema-desculpa em gran finale com direito a coreto desafinado


Eu cantarei o poema-desculpa
Cantarei o poema-me-perdoa
Por ser tão sem expressão
Cantarei o poema-sem-álcool
Cantarei o poema-tímido
O poema-mediano
Cantarei o poema-calado
O eterno poema-sem-assunto
O épico poema-assexuado
Anaforicamente
Pateticamente
A juventude
Da mais escusa torre
As mãos vazias
Rugas, gris 
Pus com sangue da manhã
O poema-rastejante
Pedindo perdão
Por ter nascido


               Leonardo Alves

quarta-feira, 8 de junho de 2011

Anatomia


Ferida acesa
Ou palavra cruzada?
Flauta doce
Ou pedra geométrica?

Tinteiro de sangue
Ou fonemas de estanho?
Apanágio de mágoas
Ou esquadro semiótico?

No furor da dicotomia
dentro da ferida
e da encruzilhada
Entretando
Há o mistério
intocável.

             Leonardo Alves

sábado, 4 de junho de 2011

Poesia Contemporânea Brasileira: Micro-antologia


Já que o foco principal deste blog é a produção em versos, gostaria de fazer um intervalo dos meus próprios textos e tentar esboçar aqui um sucinto panorama da poesia contemporânea. Creio que amostragem seria a palavra certa para definir esta despretensiosa reunião de textos. Ou melhor: uma dose homeopática da poesia contemporânea brasileira. Não me arrisco a tentar qualquer sistematização. Começando pelos anos 70, na chamada Poesia Marginal, sigo até o início dos 2000.

Para quem se interessar pelo assunto, sugiro os livros 26 Poetas Hoje e Esses poetas, organizados por Heloisa Buarque de Hollanda e Na virada do Século – Poesia de invenção do Brasil, organizado por Frederico Barbosa e Cláudio Daniel.

Para quem não se interessa por antologias, a a melhor sugestão é buscar pelos livros dos poetas, em livrarias e sebos.


O RISO AMARELO DO MEDO

Brandindo um espadim
do melhor aço de Toledo
ele irrompeu pela Academia
Cabeças rolam por toda parte
é preciso defender o pão de nossos filhos
respeitar a autoridade
O atualíssimo evangelho dos discursos
diz que um deus nos fez desiguais
(FRANCISCO ALVIM)


JOGOS FLORAIS
I
Minha terra tem palmeiras
onde canta o tico-tico.
Enquanto isso o sabiá
vive comendo o meu fubá.
Ficou moderno o Brasil
ficou moderno o milagre:
a água já não vira vinho,
vira direto vinagre.
(ANTONIO CARLOS DE BRITO)


PRAÇA DA REPÚBLICA DOS MEUS SONHOS

A estátua de Álvares de Azevedo é devorada com paciência pela paisagem
de morfina
a praça leva pontes aplicadas no centro de seu corpo e crianças brincando
na tarde de esterco
Praça da República dos meus sonhos
onde tudo se faz febre e pombas crucificadas
onde beatificados vêm agitar as massas
onde García Lorca espera seu dentista
onde conquistamos a imensa desolação dos dias mais doces
os meninos tiveram seus testículos espetados pela multidão
lábios coagulam sem estardalhaço
os mictórios tomam um lugar na luz
e os coqueiros se fixam onde o vento desarruma os cabelos
Delirium Tremens diante do Paraíso bundas glabras sexos de papel
anjos deitados nos canteiros cobertos de cal água fumegante nas
privadas cérebros sulcados de acenos
os veterinários passam lentos lento
Dom Casmurro
há jovens pederastas embebidos em lilás
e putas com a noite passeando em torno de suas unhas
há uma gota de chuva na cabeleira abandonada
enquanto o sangue faz naufragar as corolas
Oh minhas visões lembranças de Rimbaud praça da República dos meus
Sonhos última sabedoria debruçada numa porta santa
(ROBERTO PIVA)

COGITO

eu sou como eu sou
pronome
pessoal intransferível
do homem que iniciei
na medida do impossível

eu sou como eu sou
agora
sem grandes segredos dantes
sem novos secretos dentes
nesta hora

eu sou como eu sou
presente
desferrolhado indecente
feito um pedaço de mim

eu sou como eu sou
vidente
e vivo tranquilamente
todas as horas do fim.
(TORQUATO NETO)


PSICOGRAFIA

Também eu saio à revelia
e procuro uma síntese nas demoras
cato obsessões com fria têmpera e digo
do coração: não soube e digo
da palavra: não digo (não posso ainda acreditar
na vida) e demito o verso como quem acena
e vivo como quem despede a raiva de ter visto
(ANA CRISTINA CESAR)

LIVROS DE CONTOS

Alma emputecida
Sombra esquisita
Se esquiva
Entre
Laços de Família
(WALLY SALOMÃO)


GUARDAR

Guardar uma coisa não é escondê-la ou trancá-la.
Em cofre não se guarda coisa alguma.
Em cofre perde-se a coisa à vista.
Guardar uma coisa é olhá-la, fitá-la, mirá-la por
admirá-la, isto é, iluminá-la ou ser por ela iluminado.
Guardar uma coisa é vigiá-la, isto é, fazer vigília por
ela, isto é, velar por ela, isto é, estar acordado por ela,
isto é, estar por ela ou ser por ela.
Por isso melhor se guarda o vôo de um pássaro
Do que um pássaro sem vôos.
Por isso se escreve, por isso se diz, por isso se publica,
por isso se declara e declama um poema:
Para guardá-lo:
Para que ele, por sua vez, guarde o que guarda:
Guarde o que quer que guarda um poema:
Por isso o lance do poema:
Por guarda-se o que se quer guardar.
(ANTÔNIO CÍCERO)




RAZÃO DE SER

Escrevo. E pronto.
Escrevo porque preciso,
preciso porque estou tonto.
Ninguém tem nada com isso.
Escrevo porque amanhece,
E as estrelas lá no céu
Lembram letras no papel,
Quando o poema me anoitece.
A aranha tece teias.
O peixe beija e morde o que vê.
Eu escrevo apenas.
Tem que ter por quê?
(PAULO LEMINSKI)

SONETO SÁDICO

Legal é ver político morrendo
de câncer, quer na próstata ou no reto,
e, pra que meu prazer seja completo,
tenha um tumor na língua como adendo. 
 
Se for ministro, então, não me arrependo
de ser-lhe muito mais que um desafeto,
rogar-lhe morte igual à que um inseto
na mão da molecada vai sofrendo. 
 
Mas o melhor de tudo é o presidente
ser desmoralizado na risada
por quem faz poesia como a gente. 
 
Ele nos fode a cada canetada,
mas eu, usando só o poder da mente,
espeto-lhe o loló com minha espada.
(GLAUCO MATOSO)

CANÇÃO DAS MUSAS

a noite arrasta seus cascos
abrindo clareiras no acaso
que precede o som.

até
as estrelas, atrás,
estão mais
acesas

se por tristezas
a morte que acusas
não couber em belezas

linha por linha
arrastem-nos como a um cão
de espumas
levem-nos a parte alguma.
(RODRIGO GARCIA LOPES)



SOBERANIA

Naquele dia, no meio do jantar, eu contei que
tentara pegar na bunda do vento — mas o rabo
do vento escorregava muito e eu não consegui
pegar. Eu teria sete anos. A mãe fez um sorriso
carinhoso para mim e não disse nada. Meus irmãos
deram gaitadas me gozando. O pai ficou preocupado
e disse que eu tivera um vareio da imaginação.
Mas que esses vareios acabariam com os estudos.
E me mandou estudar em livros. Eu vim. E logo li
alguns tomos havidos na biblioteca do Colégio.
E dei de estudar pra frente. Aprendi a teoria
das idéias e da razão pura. Especulei filósofos
e até cheguei aos eruditos. Aos homens de grande
saber. Achei que os eruditos nas suas altas
abstrações se esqueciam das coisas simples da
terra. Foi aí que encontrei Einstein (ele mesmo
— o Alberto Einstein). Que me ensinou esta frase:
A imaginação é mais importante do que o saber.
Fiquei alcandorado! E fiz uma brincadeira. Botei
um pouco de inocência na erudição. Deu certo. Meu
olho começou a ver de novo as pobres coisas do
chão mijadas de orvalho. E vi as borboletas. E
meditei sobre as borboletas. Vi que elas dominam
o mais leve sem precisar de ter motor nenhum no
corpo. (Essa engenharia de Deus!) E vi que elas
podem pousar nas flores e nas pedras sem magoar as
próprias asas. E vi que o homem não tem soberania
nem pra ser um bentevi.
(MANOEL DE BARROS)
TREZE

As lâminas da língua
talham balelas na pele-página

o corte agudo, exato, não
deixa cicatriz, mas tatuagens

que se movem ao revés
nas rugas da linguagem

o corpo escravo da fala
se verga, esgástulo, desapruma

e o verbo esgrima com a
víscera, infecundo de

tempo, espaço, gesto:
frase ou mera mímica?

anêmica a palavra míngua
à revelia do sentido

sem norte, ensimesmada,
arremedo de tatibitate,

ora engodo, ora miasma,
lance de dados viciados

rouca ou farpa a voz
perde o fio da meada

e adentra a selva obscura,
coisa mental no branco imenso

língua e voz, confrontadas,
se renegam. Ennui.
(REYNALDO DAMÁZIO)
UM FIO DE LUZ

Um fio de luz:
tesoura que baste
para tornar nítido
o que

sobre a cômoda,
sobre a mesa:
um lápis, uma pera,
um cálice,

que nossos olhos
podem anotar
sem complicação,
sem gula ou fastio.

Mesmo da morte a repentina
ternura, se vista de tal modo:
num vaso, haste, pétala
que cede.

Sobre a cômoda, sobre a mesa,
belezas que um nosso gesto
pode anexar ao peito
sem grande peso.

Ou, ainda, o peso nenhum
de quando nenhum atavio:
tábua
sem nada em cima.
(EUCANAÃ FERAZ)

quinta-feira, 2 de junho de 2011

Despertar de Mim



Dispensem de forma educada
As carpideiras
O cantor elegíaco
Suspendam o café, o chá
E as conversas constrangidas

Apaguem os falsos círios
Recolham as lágrimas
Despeçam amigavelmente
Os amigos

Não haverá mais velório
Pois decidi renascer.

                   Leonardo Alves

Filosofia



Hegel
Kant
Spinoza
Me ensinaram coisas
Que até hoje não lembro
Mas de ti
Como posso esquecer?
Como posso esquecer
O que contigo desaprendi.

               Leonardo Alves

quarta-feira, 1 de junho de 2011

Velho Tema

No princípio era o verbo
Na verdade sempre o verbo
E o tempo
O tempo consumido em verbos
Perder
Ganhar
Saber
Amar
Ser
Sonhar
No fim das contas
Nossa existência
Incrustada no tempo 
No modo verbal
E nunca sabemos
Se conjugamos corretamente
O anseio de viver.

                    Leonardo Alves