quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

A canção de amor do jovem Almafuerte

Não imploro amor
Não mais, nunca mais!
Cinco quedas-livres são suficientes
Para recuperar a aspereza.

Um e-mail às cinco da manhã
Diz que tudo foi derrogado
De uma forma tão cálida
Que o riso suspende a lágrima.

Angioplastia sem anestesia
Ao fim de cinco doses de felonia
Já não sinto dor.

A carótida é uma rosa espedaçada;
Há um projétil cravado na coluna vertebral
Mas não sinto dor
      ‘Stou áspero & duro
      Como esmeril.

Encho o rosto de cicatrizes
Com um prego enferrujado;
Ser belo qual um cavalo morto!
Atrativo como cem caveiras brancas
Num mausoléu...

Tudo derrogado
Sou a solidão nos cafés
A borrasca das tardes pelotenses
Sem máscara sem mágoa
Um leve desconforto
De arame enfarpado na uretra
E uma xícara árida de deserto.

Cinco tentativas vãs de suicídio
Cinco tenebrosos intentos de amor
São mais que suficientes
Para cinco vidas.

Cinco da manhã
Eu amanheço
Enfim.
Não imploro amor

Não mais, nunca mais.

4 comentários:

Na Ponta da Língua disse...

Esse poema doeu em mim...

Leonardo disse...

Na minha pessoa (persona poética e persona de verdade) doeu também! Expulsá-lo de de dentro de mim fez bem. Agora não dói tanto. Como é difícil abordar a temática do amor nos dias de hoje! Como é difícil viver o amor nos dias de hoje!
Obrigado por acompanhar meu blog, Vanessa! Bj

Na Ponta da Língua disse...

Ô, se é... mas ainda bem que existe a poesia (ou a escrita em si) para nos salvar de todas essas tempestades.

Leonardo disse...

Verdade! A arte, seja a que praticamos através da escrita, seja a que consumimos através de livros, músicas e filmes torna o mundo um lugar menos árido para viver. Mesmo quando nossa expressão é corrosiva, há um bem em praticá-la.